Nuno Teotónio Pereira, a Obra Aberta

A arquitetura portuguesa ficou mais pobre com a morte de Nuno Teotónio Pereira. Figura referencial, encarou programas como habitação e equipamento público ou a intervenção na cidade e no território, como Obra Aberta, concebida com um realismo sem precedentes. Aos 25 anos defendia ser "preciso construir sem preconceitos e com pureza de intenções. Com uma espécie de inocência infantil. A preocupação terá de ser construir bem". Ao longo da sua vasta produção manteve-se fiel a uma criação implicada com o real, com o lugar e as pessoas. Do compromisso social ao político é esse o sentido de uma obra aberta à participação. Estudante, bateu-se com coragem pela causa moderna publicando inauguralmente escritos referenciais de Le Corbusier. Acreditava na possibilidade de uma terceira via e manteve um olhar crítico em relação ao dogmatismo do ideário moderno, batendo-se pela ponte com a arquitetura vernácula e pela urgência da reconciliação com a história e a memória.

Pioneiro do trabalho de equipa, o seu atelier funcionou como uma escola de inovação e discussão, paralela à ESBAL da formação oficial, académica, retrógrada e repressiva. Foi lá que trabalharam sucessivas gerações dos mais importantes arquitetos, de Bartolomeu da Costa Cabral a Nuno Portas ou a Pedro Vieira de Almeida, de Gonçalo Byrne a Pedro Viana Botelho. Profundamente interessado pelas causas sociais, dedicou-se à investigação da "Habitação para o Maior Número" e concebeu importantes conjuntos de habitação económica, designadamente para Braga, Castelo Branco, Barcelos. Da luta por uma arquitetura religiosa contem- porânea resultou a igreja de Águas (1950-1952), paradigma da renovação, ampliado no Mosteiro de Sassoeiros (1958--1960), e globalmente realizado na Igreja do Sagrado Coração de Jesus (1962-1970; Prémio Valmor 1975), abrindo o lugar religioso ao espaço urbano. Com o conjunto de habitação dos Olivais-Norte (1959) propõe uma inovadora organização espacial e a participação de artistas plásticos, recebendo de novo o Prémio Valmor (1968), pela primeira vez atribuído a uma obra de carácter social. No edifício de comércio e serviços Franjinhas retoma a ideia de penetração do espaço público no edifício. Pela primeira vez a arquitetura é trazida com essa dimensão pop para a discussão pública num apaixonado debate. Nos anos 70, o plano para o Alto do Restelo é a redescoberta do valor da rua e da cidade tradicional, retomando o valor formal do quarteirão. Nos anos 80, projeta a CGD da Horta (Açores) optando por uma forte contextualização imagética. O Programa Polis da Covilhã é talvez a maior intervenção urbana do ateliê, apontando para a requalificação das ribeiras e a mobilidade pedonal. O prestígio de Nuno Teotónio Pereira ultrapassa a dimensão profissional, alargando-se à do cidadão interveniente. Denunciador de injustiças, combateu o regime do Estado Novo, tendo sido preso diversas vezes pela PIDE-DGS. Foi fundador do Movimento de Renovação da Arte Religiosa (1952-1971), presidente da Cooperativa Cultural PRAGMA, do Centro Nacional de Cultura, da Associação dos Arquitetos Portugueses e do Conselho de Arquitetos da Europa. Foi Prémio Gulbenkian de Arquitetura (1961), Prémio AICA (1985), Prémio Instituto Nacional de Habitação (1991), recebeu a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade e o doutoramento honoris causa. Diversos escritos completam a ação globalizante deste autor que soube renovar as linguagens, deste pedagogo interveniente na sociedade portuguesa. Com inteligência e permanente atualidade, poder de síntese e de diálogo, Nuno Teotónio Pereira é um exemplo de coerência, rigor e saudável tenacidade. A contemporaneidade da sua obra é a prova da resistência a modas e estilos e por isso surge com a dimensão inusitada de uma Obra Aberta.

Professora catedrática

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