México e os oitavos-de-final: uma história de amor

Após duas semanas de guerrilha subversiva, com uma sucessão de prognósticos incorrectos e estímulos involuntários ao crescimento económico (de Gibraltar), em que cada dia trouxe um gigante caído, uma expectativa destruída ou uma tradição reduzida a pó, é reconfortante assistir ao regresso da normalidade e poder voltar a escrever uma das frases que melhor define a história recente dos Campeonatos do Mundo: o México foi eliminado nos oitavos-de-final. A frase tem uma longa e comovente história. É transmitida de pais para filhos, como uma variante geracional da tocha olímpica.

Reproduz-se pelos cinco continentes, em centenas de línguas e dialectos. Crianças norueguesas, estreantes no espectáculo do Mundial, aprenderam-na ontem; jornalistas paraguaios, veteranos de cinco edições, balbuciam-na há anos durante o sono, por força de hábito.

Porque não foi a primeira eliminação do México nos oitavos-de-final, nem a segunda. Também não foi a terceira, nem a quarta - nem a quinta. (Algumas pessoas podem desconfiar que o México foi ontem eliminado nos oitavos-de-final pela sexta vez; mas também não foi a sexta).

Havia alguma esperança entre os mexicanos de que as coisas agora fossem diferentes, e que, ao contrário do que aconteceu em 2014, 2010, 2006, 2002, 1998 e 1994, a selecção não fosse eliminada nos oitavos-de-final. Curiosamente também não foi a primeira vez que os mexicanos chegaram à prova esperançados. Em 2006, já de tal maneira conscientes da tendência fatídica que começava a haver alguma conversa cautelosa sobre "maldição", o seleccionador (na altura o argentino La Volpe) tomou medidas drásticas: contratou uma especialista em feng shui que levou os convocados numa expedição ao topo da Pirâmide do Sol em Teohtihuacán, onde os aconselhou a darem as mãos, formarem um círculo, e fazerem exercícios de respiração. O resultado prático desta estratégia foi que o México foi eliminado nos oitavos-de-final. 2006 foi também o ano em que López Obrador se candidatou pela primeira vez à presidência, num acto eleitoral renhido que perdeu por uma margem de apenas 0,38%. Mas em 2018 tudo era diferente: o país foi às urnas precisamente no dia anterior ao jogo com o Brasil e Obrador conseguiu uma vitória avassaladora. Poderia esta alteração sísmica na política mexicana ter repercussões no desempenho da equipa nacional? O que aconteceu, só para recapitular, foi que o México voltou a ser eliminado nos oitavos-de-final. Perante este nível de consistência, é quase pedestre mencionar a solidez defensiva do Brasil ou as exibições de Neymar e Willian, que se limitaram a ser meros figurante num ritual esotérico, cumprindo um papel determinado não pela sua qualidade individual mas pelo destino de terceiros.

No outro evento do dia, Bélgica e Japão, sem constrangimentos históricos de qualquer ordem, tiveram liberdade para travar um dos confrontos mais imprevisíveis e empolgantes da prova até agora. A "geração de ouro" belga (e todos sabemos o fiável indicador de sucesso em torneios internacionais que costuma ser essa designação) continua a apresentar-se como um extravagante acervo de talentos individuais à procura da maneira mais cortês de explodir, para não sujar ninguém. Foi enternecedor observar a consternação com que o seu trio defensivo reagiu à pressão da linha avançada japonesa: como se estivessem diante da maior disrupção táctica na história do futebol desde que Helenio Herrera comprou o primeiro cadeado.

Não pela primeira vez, a Bélgica pareceu uma equipa letal quando tem muito espaço e pouco tempo - e uma equipa banal quando tem muito tempo e pouco espaço. A dada altura, tanto Bélgica como Japão fizeram as contas, perceberam qual o único caminho para o triunfo, e encontraram-se perante o mesmo desafio: como persuadir o adversário a insistir calmamente no ataque planeado de forma a poderem assassiná-los no contra-ataque. (A segunda parte foi tão dedicada a abrir avenidas à rectaguarda que Luis Suárez e Cavani derrotaram as duas equipas por 5-0, mesmo sem o Uruguai estar em campo).

Acabou por ser um contra-ataque perfeito da Bélgica no último minuto a selar o resultado final, mas podia perfeitamente ter sido ao contrário: uma frase que descreve correctamente todos os encontros dos oitavos-de-final em que o México não participou.

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