Manuel Alegre celebra rei sem trono

Manuel Alegre acaba de publicar o livro Auto de António (ed. Dom Quixote), que recorda e celebra no seu intenso registo poético a figura de D. António Prior do Crato, breve rei de Portugal que morreu no exílio em Paris, cidade onde os seus ossos ficaram sepultados. O seu retrato nunca ampliou a galeria dos reis. Era, como se diz na contracapa do livro, o rei do povo miúdo, dos frades, do baixo clero e dos jovens fidalgos. Nunca aceitou bater-se pelos interesses das grandes casas da nobreza, incluindo a de Bragança, que duraria no poder até à implantação da República.

Foi um rei breve e de frágil força militar que conseguiu vencer alguns confrontos com as tropas da invasão filipina. As forças que lhe eram fiéis dominaram até ao limite da capacidade física e militar as mais importantes ilhas açorianas. António sofreu no exílio as contrariedades geradas pela falta de apoios e dinheiro para continuar a resistir. Acabou por morrer em 26 de agosto de 1595 em Paris, sem dinheiro ou apoios militares e políticos relevantes, com dois filhos em posições diferentes quanto a Portugal, um a seu lado, outro identificado com interesses opostos.

A historiografia sempre tendeu a considerá-lo somente como pretendente ao trono e não como rei que de facto conseguiu ser, ainda que por pouco tempo. Era neto de D. Manuel I e filho bastardo de uma cristã-nova. Sabe-se que acompanhou o rei D. Sebastião na campanha de Marrocos, tendo sido capturado em Alcácer-Quibir e salvand--se com determinação e astúcia.

Manuel Alegre, tal como fez Jorge de Sena numa brilhante peça de teatro, celebra-o como herói que foi, dizendo: "Tão depressa o povo aclama/ como esquece/ assim António assim Delgado/ era também Prior do Crato sem saber/ caído e não caído/ como António/ o que foi rei por nunca o ser." E diz mais: "Há o português que gosta e não gosta/ e tem remorso e não conseguir sair de si. Quer o mundo e não passa do Chiado." E assim fica dito e localizado o essencial.

Alegre, que foi merecido Prémio Camões em 2017, faz de D. António, como já antes fizera com Che Guevara, assassinado há 50 anos em La Higuera, na Bolívia, um símbolo dos combates que acha que devem continuar a ser travados. Sabe do que fala, ele que duas vezes foi candidato a Belém contra Cavaco Silva. Nesta celebração de D. António põe-no no registo poético da história a par de Humberto Delgado, também ele presidente-rei sem trono, assassinado fora de Portugal, em fevereiro de 1965, quando tanto lhe podia ainda ter dado.

Agora Alegre aceitou ser presidente de honra da SPA, também por saber que os criadores culturais portugueses são, um pouco como o Prior do Crato, reis sem trono mas com pátria. Reis pobres que precisam de quem bem os represente nos campos das árduas batalhas em defesa dos seus direitos. O seu título honorário é o da força simbólica. A instituição é forte e nunca permitirá que não autores se confundam com autores, cobiçando, sem mérito próprio, os seus direitos e garantias.

Também a esse nível Manuel Alegre dá voz a um rei sem trono e sem tropas que morreu só e triste, deixando o coração guardado no convento da Avé Maria, da Ordem de Santa Clara, em Paris. Ficou longe o coração mas connosco o exemplo do homem que não se quis deixar vencer. Quando os poetas cantam os heróis, eles vivem duas vezes.

Escritor, jornalista e presidente da Sociedade Portuguesa de Autores

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