Líbano: o que ainda há por dizer?

Já tudo foi dito sobre o assunto, sobre a história da criação francesa de um país-reduto para os cristãos no Médio Oriente, sobre esse falhanço presente nas quotas religiosas que impõem equilíbrios permanentemente no "fio da navalha", sobre o peso do Hezbollah, dos iranianos, dos israelitas e da corrupção endémica nos destinos do país, do choque que se tornou ira quando a poeira assentou e que resultou em manifestações que acabaram na demissão do governo. Falou-se muito também da necessidade de mudança, mas não se falou de futuro. Não se alvitrou ainda sobre como os libaneses chegarão ao futuro. Falou-se na inevitabilidade de futuras eleições, mas não se falou do futuro próximo. Esse mesmo que permitirá aos libaneses virarem a página e terem um sono tranquilo.

Nada mudará se se avançar para novas eleições sem uma profunda reforma no sistema eleitoral. As reformas levam tempo e, como não são "café expresso", até já começaram antes da desgraça. Ou seja, como quem tem o poder não quer abdicar dele, apresentou uma proposta de novos círculos eleitorais antes das últimas eleições legislativas (2018, estando previstas inicialmente para 2013), que deu ares de avanço, mas deixou tudo como dantes, a bem dos equilíbrios tradicionais. A reforma assentou numa nova proposta do sistema proporcional, mas permitiu os resultados de sempre, porque se limitou às províncias e não foi mais além. Os libaneses esclarecidos, que estão certos de que manifestações cegam mais do que esclarecem, acreditam que a correcção de tiro a efectuar no imediato é "esticar" essa reforma de novos círculos eleitorais e nova proporcionalidade das províncias para os distritos, única forma de quebrar a "pescadinha de rabo na boca" dos equilíbrios actuais e promover a desejada mudança, abrindo a porta às iniciativas cívicas que cegamente se manifestam na rua, mas que no fim do caminho se "espetam" sempre no muro do statu quo reinante. Desta forma, limitar-se-ia também o poder e a influência do famigerado Hezbollah, hegemónico no sul de Beirute, na província do Beka (que extravasa o sempre referido vale) e no distrito de Hermel, parte norte do tal vale. Assim, provocar-se-ia a pulverização dos círculos eleitorais e abertura do espaço político a uma sociedade civil exausta do religioso e dos religiosos. De todo o pungente a que assistimos nos últimos dias, retenho a imagem e palavras de uma mãe à cabeceira da cama de hospital onde o filho amassado recuperava e que dizia "só quero pegar nele e ir para longe daqui, para um sítio onde não haja políticos, para um sítio onde não haja política, para um sítio onde não haja religião, estou farta!".

No fundo do fundo, a mudança radical que esta "reforma esticada" poderia trazer seria uma democracia representativa não baseada no religioso e sim no cívico, o que por sua vez iria implicar também uma redefinição das relações de poder entre presidente, primeiro-ministro e Parlamento. Mas isso também seria estar a iludir-me, já que, no fundo do fundo, vai ficar tudo na mesma, porque quem tem o poder vai sempre querer mantê-lo!

Bon courage, Líbano.

Politólogo/Arabista

www.maghreb-machrek.pt

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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