Jean-Michel Jarre: o teclado universal dos direitos dos autores a nível mundial

Até Junho do próximo ano, o compositor e músico francês Jean-Michel Jarre, filho de Maurice Jarre, será o presidente não executivo da Confederação Internacional de Sociedades de Autores e Compositores (CISAC), com sede em Paris, que congrega 239 sociedades de autores de 121 países e representa e defende cerca de quatro milhões de criadores de todas as disciplinas. Assumiu esta função em Junho de 2013.

Jean-Michel Jarre, com uma actividade que se desenvolve em vários continentes e tem também como referência a capital japonesa, por ser um país onde tem, de longa data, centenas de milhares de admiradores, é uma figura única da música a nível mundial e um defensor corajoso e combativo dos direitos dos autores. Deverá cessar estas funções em Tóquio, em Junho do próximo ano, numa assembleia geral da confederação.

Instrumentista, compositor e produtor com mais de 80 milhões de discos vendidos e com um público fiel em vários continentes, Jean-Michel Jarre nasceu em Lyon a 24 de Agosto de 1948 e aceitou substituir na presidência da CISAC o cantor e músico britânico Robin Gibb, um dos fundadores dos Bee Gees, que entretanto morreu em meados de 2012, tendo ainda participado em várias assembleias gerais em capitais de vários países, em que o vi e tive oportunidade de conversar com ele.

Há quem pense e defenda que a função primordial dos autores é criarem e difundirem em condições dignas as suas obras, deixando para quadros executivos a sua representação e defesa no mundo complexo e muito diversificado das sociedades de autores. Em grande parte é verdade. Quem constrói uma carreira que pode envolver palcos, estúdios e a gestão de complexos recursos dispõe, em regra, de pouco tempo para gerir todas as componentes empresariais da gestão.

Porém, há exemplos de dirigentes de sociedades que acumulam as duas componentes com êxitos assinaláveis e com visões estratégicas muito dinâmicas que merecem observação e apreço.

Jean-Michel Jarre, que possui um pensamento próprio e bem estruturado sobre estas matérias, é um homem da música, da produção, mas também do negócio que envolve a criação de obras e a boa cobrança dos muitos direitos gerados. Por isso, ouvi-lo falar destes temas constitui sempre a demonstração de que Jarre sabe bem do que fala e, mesmo sem responsabilidades executivas, sabe dar voz e sentido às reivindicações que a CISAC assume em Paris e pelas quais se bate em todo o mundo.

Jean-Michel Jarre, nascido num país que foi berço da defesa consistente e estruturada do direito de autor, desde o tempo de Victor Hugo e de outros grandes escritores, compositores e dramaturgos do século XIX, foi o primeiro músico ocidental a ser autorizado a realizar um grande um show na República Popular da China.

Talentoso e engenhoso criador de grandes concertos ao ar livre, Jean-Michel Jarre, músico e compositor muito respeitado pela qualidade e pela universalidade da sua obra em todo o mundo, sabe utilizar os mais sofisticados meios tecnológicos e também o fogo-de-artifício, indo ao encontro de uma antiga tradição francesa que, em reinados importantes, ligou o conceito de espectáculo à própria encenação do exercício centralizado do poder.

Na assembleia geral da CISAC, realizada com grande êxito em Lisboa a 8 de Junho de 2017, a SPA atribuiu a Jean-Michel Jarre a medalha de honra como forma de reconhecimento da relevância do seu trabalho e do seu exemplo como congregador de vontades e energias mobilizadoras.

Embaixador da Boa Vontade da UNESCO, Jean-Michel Jarre nunca deixou de se bater, numa perspectiva humanista e universalista, por aquilo que considera justo, solidário e inadiável.

Em 1986, Jarre trabalhou num projecto de concerto com a NASA, imaginando que os batimentos cardíacos de um astronauta poderiam ser usados como "amostras" de som da sua música. Após o desastre com a Challenger, a 28 de Janeiro desse ano, a música acabou por ser gravada, sendo dedicada aos astronautas mortos na explosão da nave espacial.

Quando Jean-Michel Jarre, com o poder de comunicação que o tempo, a experiência e a vida consolidaram, apela, como ainda agora fez em Varsóvia, na assembleia geral anual da CISAC, à unidade dos autores de todo o mundo e ao reforço da sua combatividade e da capacidade de negociarem com os governos dos seus países, mostra que só pode ser este o caminho para um autor que aceita ser o rosto e a voz de milhões de autores em todo o mundo.

Resta agora saber quem se lhe seguirá, mas com uma certeza clara e antecipada: será difícil cumprir a mesma missão com este nível de excelência, sentido de liderança, disponibilidade e com a exacta noção do que é essencial e verdadeiramente inadiável. Espera-se uma escolha adequada e consensual, mesmo não sendo fácil. Se Jean-Michel Jarre aceitasse prolongar o seu mandato, em nome de um mobilizador interesse colectivo, seria o ideal e um factor gerador de unidade e consenso.

José Jorge Letria é escritor, jornalista e presidente da Sociedade Portuguesa de Autores

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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