Instruções Para Dizer Adeus

A oportunidade de observar variações estilísticas fundadas sobre uma tradição com continuidade no tempo será talvez o apelo mais forte do futebol internacional. Tendemos a ver uma identidade nacional, ou pelo menos a nossa ideia caricatural da mesma, traduzida no relvado, mesmo quando as forças concertadas da homogeneização tornam essas ideias irreconhecíveis. Mas se formos realmente dedicados à procura de estereótipos nada disso nos incomoda, e tendemos a fazê-lo não só com as equipas, mas com os respectivos adeptos. Tudo isto, como é óbvio, é o jogo das generalizações - e todos sabemos como são as generalizações.

Em pleno Euro-2004, num debate na rádio inglesa TalkSport, o poliglota colunista desportivo Gabriele Marcotti (que fala fluentemente italiano, inglês, espanhol, alemão e japonês, e escreve para publicações em três países diferentes), irritou ligeiramente os companheiros de programa ao afirmar que, de todos os países que conhecia, aquele onde o adepto comum menos percebia de futebol era a Inglaterra. O moderador (inglês) quis saber quais eram então, na sua experiência, os que percebiam mais. Marcotti respondeu sem hesitar: "os italianos e os portugueses". Isto é outra generalização e todos sabemos como são as generalizações: extremamente correctas.

Assisti a 27 das 44 partidas do Mundial até agora num bar em Lisboa, cuja clientela rotativa tem incluído representantes de quase todas as nações em prova (as únicas excepções que notei foram nigerianos e islandeses, estes últimos presumivelmente por estarem todos na Rússia). Vi uma mulher saudita reagir a um golo do Uruguai atirando uma cadeira ao chão. Vi um adepto japonês ser histericamente incentivado pelos amigos a acender um "cigarro da sorte" segundos antes de um pontapé de canto. Vi uma solitária cidadã belga em absoluto silêncio durante os 90 minutos do jogo contra o Panamá, festejando cada um dos três golos com um estalar de dedos. Vi duas dezenas de ingleses enganados pelas outras duas dezenas que festejaram sarcasticamente o golo de honra do Panamá, chegando ao fim do jogo convencidos de que o resultado tinha sido 7-0 e não 6-1. Vi quatro alemães taciturnos relegados para uma sala secundária, depois de a sala grande ser anexada por um muito superior contingente de suecos.

Toda esta recolha etnográfica ad hoc foi também permitindo ouvir um grande número de interjeições espontâneas arremessadas na direcção dos ecrãs: o Esperanto do treinador de bancada e a base perfeita para testar a generalização de Marcotti. Se a medida do conhecimento do jogo do adepto comum é a especificidade das instruções dadas (ou das perguntas retóricas gritadas) aos jogadores, então apraz-me concluir que o adepto português está no patamar intermédio entre o argentino e o brasileiro. "Solta a bola" foi, de longe, a mais ouvida, seguida de perto pelo sempre popular "chuta!" e a uma distância maior por "corre!" - tudo soluções rudimentares, mas que também não envergonham ninguém.

Quão primitivos parecemos, no entanto, comparados com os argentinos. É possível, e até desejável, que não sejam representativos, mas os quatro adeptos da albiceleste que acompanharam o jogo com a Croácia na mesa ao lado da minha foram os espécimes mais intimidantes que já observei em cativeiro. Entre as instruções que ouvi contam-se "combina com o lateral!", "recua três metros!" e a dada altura (juro que isto é rigorosamente verdade) "porque é que não meteste de calcanhar na diagonal, pelotudo?". Já as instruções brasileiras foram as mais inocentes e simultaneamente as mais complexas, limitando-se quase sempre a um "vai Neymar, faz o gol" (mesmo que ele tivesse apenas recebido a bola atrás da linha de meio-campo) e não avançando qualquer sugestão adicional sobre como concretizar essa directiva.

Mas ninguém bateu em sofisticação o único peruano presente na despedida contra a Austrália. Em contraste com a exuberância que os seus concidadãos mostraram na Rússia, passou o jogo inteiro afundado num sofá. Após o apito final, Christian Cueva, cujo penálti falhado no jogo inaugural foi decisivo na eliminação, atirou-se para o relvado e chorou copiosamente durante cinco minutos, ao longo dos quais vários colegas se foram aproximando à vez para o consolar. Sempre que isso aconteceu, o adepto peruano no exílio respondeu com a única indicação táctica que proferiu durante a tarde inteira: "Deixem-no estar. Ele tem razão".

Por opção pessoal, o autor não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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