In memoriam - Jaka Jamba

Morreu em Luanda de crise cardíaca na passada manhã de 1 de Abril. Conheci-o na UNITA, fardado de oficial, de Motorola, Kalash e cartucheiras. Culto, calmo, conversador, encantador. Dentro e na pele da sua gente, mas também fora e de fora, empenhado mas lúcido. Tinha um nome de guerra: Elefante. Era a memória da tribo, o cronista do reino.

Almerindo Jaka Jamba não era um intelectual ovimbundo, era o intelectual ovimbundo: pensador, leitor, escritor. Entre os quadros dirigentes da UNITA, onde não faltavam talentos, distinguia-se pela formação humanística, pela cultura literária lusófona e latina, pelo discurso consequente, pelo compromisso entre a lealdade ao chefe e ao grupo e a racionalidade e justa medida que lhe vinham de saber olhar o mundo e de se saber ver - e à sua gente - sob o olhar do mundo.

Porque Jaka Jamba era um curioso das coisas do mundo: das pessoas, dos países, dos livros, das voltas e reviravoltas de tudo. A sua geração - mais ou menos a minha - viveu a Angola do império português, o Portugal do fim do Estado Novo, a Angola da primeira e da segunda guerra civil e a Angola da paz. Era um narrador e contador fabuloso sem nunca deixar de ser rigoroso. Ouvi as suas crónicas da vida política quotidiana e sentimental da Jamba neste mesmo escritório do Campo Grande de onde agora escrevo esta "necrologia". Ouvi aqui os memoriais extraordinários de um mundo real e fantástico que ele relatava ao modo de um romance de García Márquez ou de um conto de Borges, ou até do Barrès de Du Sang, de la Volupté et de la Mort; crónicas de paixão, traição, expiação e fim.

Conheci-o nas "terras do fim do mundo" fumador inveterado, ainda magro e seco, fardado de coronel. Encontrei-o depois em Lisboa e em viagens pela Europa. A partir de 1996, quando voltei a Luanda a convite do general João de Matos, os nossos encontros foram ainda mais assíduos e interessantes. Nessa altura ia lá com muita frequência: eram os últimos anos da guerra civil e tentávamos, precisamente, acabar com ela. Com o António Marques Bessa, o Miguel Freitas da Costa, o Luís Salgado de Matos, o Nuno Rogeiro e outros íamos como conferencistas convidados pelo ISEM e passávamos esses dias com políticos da oposição e militares do governo - Justino Pinto de Andrade, Abel Chivukuvuku, Jaka Jamba, Vitorino Hossi e os generais Ndalu, Matos, Melo Xavier, os Faceiras e Peregrino Wambo.

O que mais impressionava ali era o clima de convívio e cumplicidade entre inimigos políticos numa cidade cercada, onde só havia meia dúzia de restaurantes e hotéis. Fazíamos a volta destes amigos nos jantares na Ilha, nas noites frescas do cacimbo, falando de tudo com grande à-vontade.

O Jaka Jamba era uma das estrelas dessas tertúlias improvisadas, onde se contavam as histórias vividas da Angola da guerra e da paz, misturadas com memórias de Portugal, dos Estados Unidos, da Rússia, da Guerra Fria. Foi um tempo memorável e nunca me esqueço de agradecer a Deus o privilégio de o ter vivido numa cidade que, com todos os seus problemas e tragédias, me habituei a ver como uma segunda casa.

Depois da paz de 4 de Abril de 2000 continuei a ir a Luanda e a encontrar-me com o Jaka Jamba. E também em Paris, onde ele esteve à frente da representação de Angola na UNESCO.

Com a sua narrativa escrupulosa mas colorida e rica, temperada por um humor às vezes pícaro, um humor de humanista clássico, que nos aproximava do fundo das almas e dos corações das pessoas, com palavras que pintavam gestos, risos, lágrimas, alegrias, medos, Jaka Jamba entreabria, como ninguém, as portas para os mistérios e segredos do movimento e do partido a que pertencera e pertencia: contava o caos, reconstituía os ambientes, dava a densidade da tragédia, para depois a reperspectivar de uma distância analítica que conseguia nunca fria nem cínica.

Foi assim, com a precisão possível, que me contou a longa história que envolveu o calvário e morte de Tito Chingunji, de Wilson Santos e das suas famílias para os Jogos Africanos, uma memória pessoal de Angola, de Moçambique e da Guiné. Jaka Jamba traçava os comportamentos humanos nos limites do poder, da paixão e do risco com uma lucidez coreográfica num tempo e num modo africanos, aproximando-nos das maquiavélicas intrigas de Otelos e Desdémonas, de Iagos, Ricardos Terceiros e Macbeths, de príncipes, fantasmas e tiranos, de bruxos e bruxas. Se em Angola e em Portugal se prezassem as crónicas e a história, teria sido reconhecido como o grande cronista desse drama de quarto de século que foi a guerra civil angolana.

E porque assumia a sua pele e a dos outros e percebia a vivência de um e do outro lado, foi um homem de pontes, de reconhecimentos, de entendimentos, de paz. Também por isso, na hora da sua morte, foram unânimes e convergentes as mensagens dos seus compatriotas de todos os partidos, de todas as famílias, de todas as sensibilidades: do ex-presidente José Eduardo dos Santos ao seu sucessor João Lourenço, dos inimigos de outrora aos companheiros da UNITA ou aos seus amigos, agora na CASA, Abel Chivukuvuku e Justino Pinto de Andrade.

Era um homem de convicções firmes e coerentes. Sabia que por mais empenhados nas causas deste mundo e conscientes e orgulhosos das nossas diferenças e identidades que estivéssemos, bem acima dos partidos, da política ou da guerra, acima de tribos e raças, acima até de feridas, humilhações e ressentimentos, nos unia a nossa condição de filhos de Deus (mesmo de um Deus desconhecido ou menor), o nosso destino comum, a nossa identidade última no mistério que está para além da porta por onde ele agora entrou.

Jaka Jamba sabia-o bem e praticava com graça e generosidade essa fraternidade superior a que nos obriga ou devia obrigar a nossa circunstância de homens sujeitos às leis da vida e da morte. Que descanse em paz.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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