Gareth e os perigos do populismo

Aconteceu o que mais se temia - a Inglaterra de Gareth chegou às meias-finais de um Mundial pela primeira vez desde 1990. Embora muitos leigos tenham reagido com compreensível consternação a estes desenvolvimentos, nenhum observador atento do fenómeno futebolístico ficou verdadeiramente surpreendido: os sinais de alerta estavam lá desde o início.

Mas cada um à sua maneira, todos somos culpados, pois todos fomos ignorando, alguns por complacência, outros por ignorância, os indicadores de que o Campeonato do Mundo estava perante uma ameaça existencial. Alguns podem ainda sentir-se tentados a encarar tudo isto como uma anomalia histórica, um mero desvio probabilístico, uma versão atenuada do Teorema do Macaco Infinito (se quinhentos macacos escreverem à máquina durante quinhentos anos acabarão por produzir as obras completas de Harry Maguire). Mas é hoje inegável que estamos à beira do abismo, e a pergunta que se impõe é: como foi possível chegarmos aqui, ao ponto onde um óbvio demagogo como Gareth conseguiu capturar uma instituição centenária tão importante?

Tal como o Brexit ou a eleição de Trump, o Garethismo é um sintoma de uma doença mais profunda. Mas não surgiu num vácuo. É resultado de um falhanço sistémico: um processo gradual de erosão de confiança, em que o futebol deixou de se sentir representado pelas instituições humanas, passando a existir num estado permanente de alienação das normas impostas por uma elite remota e politicamente correcta. É aí que se abre o espaço para demagogos como Gareth. Algumas conceptualizações políticas e sociológicas do populismo fornecem pistas e elementos de convergência que permitem filiar o Gareth numa linhagem muito específica:

- as sementes do Garethismo germinam com maior facilidade em alturas de crise do mainstream futebolístico, quandos os líderes tradicionais perdem credibilidade junto da bola de futebol, como agora aconteceu à Alemanha, Espanha, Argentina, etc;

- o Gareth pode então assumir-se como porta-voz de um colectivo historicamente injustiçado, e prometer uma ruptura com o status quo, e com as elites privilegiadas que têm ganho os Mundiais mais recentes;

- o Garethismo define-se como uma identidade de exclusão, insistindo num estilo de jogo com características especiais, "diferentes", com a consequente demonização tácita do "Outro", que anda ali a passar estrangeiramente a bola a si próprio. Este tribalismo primário acaba por legitimar um futebol discriminatório, que contribui para a desumanização do "Outro", impedindo-o de marcar presença, por exemplo, nas meias-finais (como aconteceu a Suécia e Colômbia, mas também a Portugal, e tantas outras vítimas indirectas desta barbárie);

"Tal como o Brexit ou a eleição de Trump, o Garethismo é um sintoma de uma doença mais profunda"

- o Garethismo é obcecado com a necessidade de vingar a tribo pelas humilhações e desrespeitos passados, nomeadamente as constantes eliminações nos desempates por grandes penalidades;

- o Gareth assenta a sua propaganda futebolística em processos de comunicação rudimentares - mensagens claras e directas, que sejam facilmente perceptíveis pela bola de futebol e apelem a uma nostalgia por um passado mais simples, um apelo tremendamente eficaz após uma década inteira em que a bola foi governada pelos caprichos ideológicos de uma intelligentsia sofisticada (Xavi, Iniesta, Kroos, Özil, etc).

O Campeonato do Mundo está mais bem preparado que outras instituições liberais para lidar com os conflitos inevitáveis que surgem em contextos de adversidade. Mas também contém as sementes da sua própria destruição. A rigidez das próprias leis do jogo - a insistência, só para dar um exemplo, na regra que obriga a equipa que marca mais golos a ser considerada "vencedora" - torna-o vulnerável a aproveitamentos cínicos. A vantagem de um populista demagogo como Gareth é que compete formalmente dentro das restrições do processo futebolístico normal, e no entanto as suas acções transmitem um desprezo evidente pelos princípios básicos do mesmo (mostrar competência e imaginação com a bola no pé, não marcar 80% dos seus golos em lances de bola parada, etc.), bem como por normas de conduta estabelecidas - como a expectativa democrática de que a Inglaterra falharia sempre os seus penáltis nos momentos decisivos.

Quando a janela de Overton é escancarada desta maneira (à biqueirada) e estas abominações incluídas na esfera do que é aceitável, então todos os limites são cancelados e as regras normais deixam de ser aplicadas. Para já, o Gareth chegou às meias-finais. Quem sabe o que pode acontecer a seguir? Edmund Burke escreveu, com imensa razão, que tudo o que é necessário para o Mal triunfar é que os homens de bem fiquem quietos. Que não seja o caso de Modric, Rakitic, Rebic, e dos outros (poucos) homens de bem que ainda nos restam.

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