Eduardo Lourenço, 95 anos: o pensamento que nos ilumina

Celebrar Eduardo Lourenço, com a lucidez e a vitalidade dos seus 95 anos de idade, é celebrar a clareza de um pensamento que, sendo tantas vezes gémeo da poesia, representa uma capacidade única de pensar Portugal e de nos pensar no Portugal de hoje e no de sempre, como acontece no livro O Labirinto da Saudade, que serviu de base ao filme de Miguel Gonçalves Mendes já em exibição nas salas de cinema e exibido na RTP.

Eduardo Lourenço é, não só a matéria central deste filme, mas é, acima de tudo, o seu vital protagonista, com a generosidade, o sentido de partilha e a lucidez tranquila que tanto e tão bem caracterizam as suas intervenções. Conheço Eduardo Lourenço o bastante para considerar que a sua obra e a sua vida, muito para além da política e da ideologia, são lugares únicos e definitivos do nosso encontro connosco e com o mundo, sobretudo neste tempo de inquieta incerteza que marca a vida da Europa e do mundo.

Os anos de convívio no espaço do Jornal de Letras, onde sempre foi colaborador destacado, a sua disponibilidade para fazer comigo um livro sobre a Europa, que deu origem ao livro A História é a Suprema Ficção, (2014, ed. Guerra e Paz), edição que Mário Soares generosamente considerou uma obra exemplar pela qualidade do pensamento do ensaísta, a generosidade que lhe permitiu escrever o texto de abertura de Isto de Ser Autor, e a escrita do prefácio da edição comemorativa dos 90 anos de existência da SPA (Guerra e Paz) mostram Eduardo Lourenço como um homem sempre solidário que não gosta de dizer que se sente ainda mais livre quando tem tempo e espaço para estar com os outros e ir ao encontro das suas expectativas e vontades.

Recordo-me ainda do facto de termos estado presentes na visita oficial de Mário Soares ao Brasil em Abril de 1987, com uma delegação que muito honrou Portugal e nem sempre foi devidamente compreendida e louvada pelos brasileiros e em particular pela sua imprensa. Mas Mário Soares e Eduardo Lourenço, entre muitos outros, estavam muito para além e acima desses episódios de passageiro desencontro que o tempo se encarregou de colocar no seu merecido lugar. A História e o tempo passam e tudo isto se torna mais evidente.

O Eduardo Lourenço que hoje aplaudimos e celebramos é o que escreve: "A cultura não é lugar de revelação alguma, é apenas o lugar onde todas as revelações são examinadas e discutidas sem fim. Para que cada um de nós possa viver dessa discussão infinita do mundo e de si mesma." E também: "Passámos do trágico para uma espécie de carnavalização de todas as experiências, todas as atitudes humanas. Hoje não é dúvida de que o espaço próprio da civilização a que pertencemos é a televisão."

Mas Eduardo Lourenço é também quem considera que "a Europa real é uma colecção de identidades que já não têm capacidade de viver plenamente como nações, nem a força de querer e de imaginar a futura Europa como uma espécie de nação". Sobre a Europa, o ensaísta vai mais longe e mais fundo no livro "A História é a Suprema Ficção", em que elegeu este continente como tema central da sua intensa reflexão.O homem que define a televisão como "uma cultura do esquecimento e uma criação do esquecimento" é um dos mais marcantes e estimulantes pensadores contemporâneos, em Portugal e na Europa e, por esse motivo, uma referência plena para quem quer perceber o nosso lugar na vida e no mundo.

No livro para o qual o entrevistei, Eduardo Lourenço afirma: "Na nossa História, não há violências extremas. Tornámo-nos o famoso país dos brandos costumes, mas mesmo esta imagem também é uma falsa imagem. Nós também fomos um país com outro tipo de drama, que se confundiu com a existência portuguesa durante quase três séculos."

Felicitar Eduardo Lourenço pela magia da sua longevidade é também felicitar Portugal por ter quem o pense desta forma e partilhe connosco a pujança sempre renovada do seu pensamento.

*Escritor, jornalista e Presidente da SPA

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