Edgar Morin: celebração na UNESCO da vida e obra de um brilhante pensador

Aos 95 anos, com uma vitalidade, uma lucidez e uma energia impressionantes, Edgar Morin, filósofo e sociólogo, continua a ser um dos mais notáveis e inovadores pensadores mundiais, defendendo que só a compreensão do pensamento complexo nos pode ajudar a entender o essencial da existência humana, sobretudo num tempo tão incerto e complexo como aquele que estamos a viver. A UNESCO tomou a justa e merecida decisão de o homena- gear na sua sede em Paris nos passados dias 8 e 9 de Dezembro, com a realização do Congresso Mundial do Pensamento Complexo e de proporcionar outras homenagens como, por exemplo, a entrega do título de doutor honoris causa pela Universidade José Martí de Latinoamérica de Monterrey, México. Edgar Morin esteve sempre presente com uma assinalável alegria e disponibilidade, tendo a importância do seu percurso e da sua vasta obra, amplamente traduzida e editada em Portugal, nomeadamente pelo Instituto Piaget, sido calorosamente sublinhada por Jack Lang, ex-ministro da Cultura de França, durante a presidência de François Mitterrand, e seu amigo de longa data. "É um homem da mensagem da diferença, um apaixonado da humanidade que sempre nos convoca para um novo começo que envolva renovação e pensamento", disse Jack Lang, ao mesmo tempo que recordava que, semanas antes, esteve em Marrocos com Edgar Morin falando de temas tão inevitáveis como a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos. E disse mais.

Edgar Morin, um judeu sefardita que recebeu o nome de Edgar Nahoum e que adoptou o apelido Morin quando foi, entre 1942 e 1944, oficial da Resistência com a patente de tenente e com uma coragem que o levou a lutar pela liberdade que sempre amou. "Edgar - acentuou Jack Lang - é um antecipador de coisas belas, um grande visionário, um caminhante que faz o seu caminho e nos ajuda a percorrê-lo bem." Afirmou também que "não estamos aqui por acaso mas pela necessidade vital de compreensão da complexidade do mundo e da busca de respostas mobilizadoras."

Porque tive o privilégio de estar presente na UNESCO em Paris nesses dias e de ouvir Edgar Morin e Jack Lang, compreendi até que ponto o pensamento humano, designadamente o complexo que o filósofo tão bem define e explica, percebi até que ponto a nossa vida colectiva se enriquece e ilumina com o trabalho de reflexão filosófica de um homem de tanta vitalidade e energia criadora.

"Estamos num momento em que todos os seres têm um destino comum e uma consciência planetária que também cria angústia e medo do amanhã - declarou Morin, para logo acrescentar: "A UNESCO deve ser a bandeira do presente e do futuro, com um universalismo que represente a participação de todos nesta imensa aventura. Nós somos um átomo no meio desta aventura. Hoje é o próprio universo que está ameaçado. Este é um tempo de solidariedade dificultada pela incerteza e pela angústia global. A revitalização das políticas públicas passa por um interface constante. A complexidade aprende-se e ensina-se."

Depois de ter afirmado que "o nosso organismo funciona ao ritmo da sua própria destruição", Edgar Morin disse que "tudo o que nós somos está disperso por múltiplos saberes e daí resulta a grande complexidade do nosso pensamento e da nossa relação com a realidade. Só a solidariedade e a responsabilidade devem ligar-nos e fortalecer-nos. O pensamento complexo liga-nos ao mundo e assim transportamos em nós toda a complexidade do universo". E acrescentou. Falando em pé para uma plateia entusiástica, Edgar Morin, que publicou o seu livro de estreia em 1946, que foi militante do Partido Comunista Francês, do qual seria excluído em 1951, e que construiu uma carreira académica e como ensaísta invulgarmente brilhante e motivadora, mostrou, nestes dois dias na sede da UNESCO em Paris, que tem alegria e vitalidade bastantes para acrescentar mais luz e clareza à grande aventura de estarmos vivos e vigilantes neste mundo complexo e inquietante.

Aplaudido de pé pelas centenas de presentes, franceses e de muitas outras nacionalidades, Edgar Morin mostrou que a idade não é peso que o vergue e fragilize. Foi combatente da Resistência e manteve sempre com o poder uma relação crítica e inquiridora que nunca deixou de ser o timbre central da sua liberdade. Assim o vimos em Portugal e o recordaremos sempre pela forma original e mobilizadora como interpreta o mundo e o nosso lugar nele. No mesmo momento em que a UNESCO o homenageava era lançado em França um novo texto ensaístico de Edgar Morin sobre a estética, sinal sempre renovado da sua energia criadora que o tempo não ofusca nem apaga.

Ver Edgar Morin ao vivo em Paris, com a UNESCO a ser cenário de um aplauso global e ilimitado, é um acto de alegria espiritual que nos leva a sentir a profundidade de uma das frases essenciais que pronunciou: "Temos de defender cada vez mais a ideia de fraternidade que nos une." Assim falou e se definiu este pensador que é um grande cidadão do mundo e um homem que nos mostra a cada passo a importância das ideias contra o obscurantismo que nos cerca e incessantemente ameaça.

Escritor, jornalista e presidente da Sociedade Portuguesa de Autores

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