E ainda bem!

A variação é uma característica das línguas. Todas as línguas variam em função de tempo, geografia, condição social ou contexto de uso. Todas as línguas apresentam variação, com exceção de línguas como o latim e o grego clássico, que hoje já não variam porque são línguas mortas, mas que tiveram variedades distintas em épocas, lugares e contextos distintos. A língua portuguesa não é diferente das demais línguas vivas e, como tal, apresenta variação. E ainda bem!

Se a geografia condiciona a variação, i.e., se se fala de forma diferente consoante a proveniência, é natural que uma língua como o português, que é falada em diferentes países e continentes, tenha uma enorme variação. Se só em Portugal, com os seus 10 milhões de habitantes, conseguimos distinguir claramente a variação regional, transponha-se esse facto para todos os territórios da língua portuguesa e para os seus mais de 250 milhões de falantes e imagine-se o quanto a variação se multiplicará. Junte-se a isto os demais tipos de variação (temporal, social, de registo) e veremos que uma língua viva não é, como às vezes se pensa, uma superfície pintada a uma só cor, mas antes um enorme mosaico de inúmeras peças, de cores e naturezas diferentes, que, em conjunto, constituem uma obra de arte única. E ainda bem!

A língua portuguesa é atualmente oficial de nove países e da Região Administrativa Especial de Macau. Possui duas normas linguísticas nacionais, a brasileira e a portuguesa, descritas e codificadas através de dicionários, gramáticas, etc. Possui duas normas nacionais emergentes, a angolana e a moçambicana, como resultado do caminho de paz e desenvolvimento que estes países se encontram a trilhar. E ainda bem!

A escola portuguesa não é imune à variação do português, uma vez que é cada vez mais povoada por alunos das mais diferentes latitudes e longitudes onde ele se fala e à escola compete acolher e integrar todas estas crianças, porque é isso que, enquanto sociedade, esperamos da escola de um país democrático e desenvolvido. E ainda bem!

Este processo não é simples, porém, e frequentemente ouvimos alunos que não falam a variedade europeia expressarem as dificuldades que sentem e a discriminação de que, com frequência, são alvo. Não tenhamos ilusões, a sociedade portuguesa não foi educada para a variação e para o respeito pelas demais variedades nacionais do português. E ainda há muito preconceito. Os professores provêm desta sociedade imperfeita que é a nossa e muitos não receberam sequer uma formação de base da qual constasse que a língua portuguesa é muito mais do que a norma padrão europeia.

Saber como integrar uma nova visão de língua internacional e pluricêntrica e como lidar com as variedades nacionais do português no ensino é ainda motivo de acesa discussão no meio académico. A verdade, porém, é que os professores que estão no terreno têm que resolver estes problemas todos os dias, sem orientações específicas para tal; e os estudantes que vivem em Portugal têm que aprender e ser avaliados todos os dias na escola que temos.

É comum as grandes questões da política linguística do português serem tratadas, a nível nacional, ou como fantasmas, que não existem, ou como resfriados, que se espera que passem. É necessário e urgente que estas questões passem a ser abordadas e discutidas com abertura, clareza, conhecimento e honestidade e que medidas venham a ser tomadas com fundamentação e inteligência. É necessário e é urgente, porque a língua é o que mais nos caracteriza como seres humanos e faz parte inalienável das nossas vidas, desde o nascimento até à morte. E ainda bem!

Professora Auxiliar da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e Presidente do Conselho Científico do Instituto Internacional da Língua Portuguesa - IILP

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