Dia de São Estereótipo

Durante largos minutos temeu-se o pior. Quando a Suécia inaugurou o marcador no Estádio Olímpico de Sochi, o cenário de o campeão em título ficar matematicamente afastado do Mundial logo ao segundo jogo (como acontecera à Espanha em 2010) tornou-se uma possibilidade real. Foi um momento alarmante e todos percebemos que só com muita calma e contenção se poderia evitar a consequência mais previsível e devastadora de tamanha calamidade: um dilúvio global de alusões jocosas à Operação Barbarossa.

A preocupação revelou-se prematura. Confrontado com a ameaça de uma maratona de piadas sobre o segundo fracasso alemão no Cáucaso em apenas 75 anos, o Universo acabou por reverter aos princípios elementares. O que sucedeu, de certa maneira, foi a reactivação in extremis de uma das múltiplas modalidades de estereótipo alemão ao nosso dispor: a ideia (imortalizada no célebre epigrama de Gary Lineker) de que, no fim de contas, eles nunca perdem. Há outras variações do estereótipo e algumas têm revelado utilidade histórica precisamente no momento em que o inesperado acontece. A sisuda "eficiência" do futebol alemão foi um tropo a que se deu rodagem entusiástica na década de noventa, ao serviço de uma mitologia muito mais apelativa, que é a do diletantismo talentoso. Aconteceu primeiro para fornecer um contraste com a Dinamarca, que os derrotou na final do Euro 92, após a repescagem de última hora para o torneio. Em Futebol ao Sol e à Sombra, Eduardo Galeano contou a versão caricatural da história que foi cristalizando até aos nossos dias: "o grilo cantante derrotou a formiga trabalhadora (...) Os jogadores alemães treinaram com jejum, abstinência e trabalho árduo, os dinamarqueses com cerveja, mulheres e sestas na praia (...)". E retenho uma memória vívida, durante o Mundial de 94, de uma peça televisiva após a surpreendente vitória da Bulgária sobre a Alemanha nos quartos-de-final, em que o repórter revelava, com indisfarçável alegria, que os búlgaros tinham passado o dia de folga antes do jogo a fazer compras num centro comercial (enquanto os alemães tinham, presumivelmente, estado horas fechados num ginásio a fazer flexões e a memorizar tabelas de logaritmos).

A minha teoria é que o Universo, desta vez, optou por rejeitar a segunda utilidade do estereótipo em detrimento da primeira devido à clamorosa inadequação dos intervenientes. Muitas selecções em prova seriam candidatas plausíveis a passar o dia antes de um jogo a fazer compras ou a bronzear-se nas praias do Mar Negro: mas nunca a Suécia. Por outro lado, esta selecção alemã dedicou grande parte dos 180 minutos acumulados no torneio a vulgarizar a sua própria imagem de virtuosa mecanização e taciturna eficácia.

Ninguém o fez com mais brio do que Jerome Boateng, o melhor em campo na final de 2014 contra a Argentina, e que contra a Suécia legou à posteridade uma das exibições individuais mais estranhas que um defesa-central já fez em Campeonatos do Mundo. Muito antes da expulsão, tratou de editar em tempo real uma antologia de todos os truques e subterfúgios usados pela humanidade no seu combate ancestral contra o senso comum. Acumulou erros de posicionamento, decisões com bola incompreensíveis e tentativas de corte irresponsáveis. A dada altura, decidiu ajeitar as meias no momento exacto em que a Suécia iniciou um contra-ataque; noutro momento estranhíssimo, tentando jogar na antecipação, saltou para cortar de cabeça o que adivinhava ser uma bola alta, só que a bola alta nunca chegou. E fez tudo isto sem nunca se esconder do jogo, ou abdicar da convicção de que ele era o mais forte candidato a resolvê-lo (e conseguindo até, no meio do caos, executar alguns dos melhores passes longos da noite).

É raro encontrar a este nível competitivo um jogador tão pouco influenciado ou perturbado pelas circunstâncias. Se um editor de imagem com demasiado tempo livre conseguisse montar uma sobreposição de todas as acções individuais de Boateng num jogo completamente diferente (noutra competição, noutro país, noutra década) é possível que o vídeo resultante fosse mais coerente. Boateng jogou não como peça de uma engrenagem oleada, mas como alguém que acabara de chegar da praia: sem expectativas, mas cheio de confiança; jogou, em suma, como o tipo de caricatura que costuma derrotar a caricatura alemã.

Por decisão pessoal, o autor não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

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