Declaração Fiscal em Triplicado

O segundo dia do Mundial não começou da maneira mais auspiciosa para o primeiro internacional português a entrar em campo. Manuel Marouane da Costa Trindade foi o único central de origens lusitanas a não ser deitado ao chão pelos pés ou cotovelos de Diego Costa, mas acabou por ter a estreia mais infeliz. Suplente utilizado, entrou a oito minutos do fim, numa altura em que Marrocos ainda não tinha sofrido qualquer golo, mas já perdera muito do ímpeto inicial, após a gradual e desconcertante descoberta de que em vez de estarem a defrontar o Irão, como ingenuamente acreditaram, estavam a jogar contra um Boavista platónico: uma equipa que falha cinco passes em cada três, mas que reduz o campo à dimensão de um quintal e parece ter a sua área permanentemente colonizada por vinte sobrinhos de Pedro Emanuel. Oito minutos foram suficientes para o francês-naturalizado-português-naturalizado-marroquino testemunhar de perto três fenómenos tão raros, indesejados e traumáticos como um desastre natural: um golo sofrido nos descontos, uma derrota injusta, e uma expressão de alegria no rosto de Carlos Queiroz.

Mas não se chega ao segundo dia de um Mundial sem exposição a uma dose moderada de portentos e prodígios, como o último jogo trataria de confirmar. Houve de tudo um pouco: troca de selos invisíveis entre Pepe e Diego Costa; trocas de passes infinitas entre os sete anões; uma subtil e inesperada contribuição de De Gea para a recuperação psicológica de Loris Karius; o mais criativo uso do código fiscal para incomodar um tipo incómodo desde os tempos de Al Capone; e, com o remate de Nacho, o melhor golo de sempre marcado por um diabético.

Há várias explicações plausíveis para o estatuto de exceção do futebol entre todos os desportos com bola, mas experimentemos esta: quase todas as outras modalidades codificam nas suas regras, e permitem nas suas práticas, tentativas de melhorar e refinar a capacidade biomecânica do indivíduo com extensões artificiais. Temos a raquete em vez da palma da mão, capacetes e chumaços em vez de osso e músculo, etc. No futebol, pelo contrário, tudo o que de mais bonito pode acontecer em campo é dificultado pelas próprias normas, que exigem destreza e agilidade na condução de uma forma esférica e suprimem as ferramentas mais óbvias para o conseguir: as mãos (que a maioria dos jogadores em campo não podem usar); e Cristiano Ronaldo (que a maioria das seleções em prova não pode incluir na equipa). Esta última proibição, saliente-se, não nos é aplicável. Honra nos seja feita, há catorze anos que não sofremos esse handicap.

Não foi há catorze, mas há quinze (17 de Agosto de 2003) que guardei um recorte de um tabloide inglês, arquivado até hoje com carinho: uma coluna escrita por um adepto confesso do Manchester United, após a estreia de Ronaldo pelo clube. Roman Abramovich comprara o Chelsea dois meses antes, estoirando prontamente cem milhões de libras em reforços; o Arsenal parecia mais forte do que nunca; e David Beckham fora vendido ao Real Madrid. Não havia grande coisa para ancorar o otimismo a não ser a meia-hora de estreia de um adolescente que fez umas fintas, uma assistência, e ganhou uma grande penalidade. Portanto foi com isso que o colunista-adepto foi à guerra, num texto completamente desesperado e que incluía um parágrafo memorável: "Wenger pode ter Henry, Vieira, Pires e Bergkamp. Abramovich pode comprar tudo o que mexa com os seus milhões. Mas nenhum deles tem isto. Nenhum deles tem Cristiano Ronaldo".

Cristiano Ronaldo tinha nesta altura 18 anos, acabara de jogar 29 minutos e parecia pesar 40 quilos, com um rosto constelado por borbulhas e um penteado que parecia o produto final de uma experiência dadaísta com massa fusilli. Mas foi o suficiente para inspirar este paroxismo de histeria num homem adulto. O que é estranho aqui não é a histeria enquanto episódio isolado, mas a capacidade demonstrada pelo precoce objecto da mesma para a fazer durar década e meia. Porque a verdade é que, contra os nossos melhores instintos e mais lúcidos raciocínios, ainda andamos todos a fazer o mesmo. Há variadíssimos motivos para tudo isto correr mal e o jogo contra a Espanha mostrou-nos vinte ou trinta. Há pelo menos cinco ou seis equipas objectivamente melhores que a nossa. Mas nenhuma delas tem isto. Nenhuma delas tem isto.

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