Consenso Estratégico sobre o Valor da Imuno-Oncologia

Os novos tratamentos em oncologia, que mobilizam o sistema imunitário para combater as células cancerígenas, estão a transformar algumas patologias mortais em doenças crónicas. Estes novos tratamentos, de imuno-oncologia, são uma viragem de 180º na forma como o cancro deve ser gerido - pelos doentes e pelos médicos, mas também pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS), que se vê a braços com uma "receita" de longo prazo para o tratamento do cancro, nomeadamente em casos avançados com metastização regional e à distancia.

Enquanto pessoa próxima de centenas de doentes oncológicos, enquanto médico oncologista, tenho certamente uma enorme expectativa. Enquanto presidente da Liga Portuguesa contra o Cancro, este sentimento é contrabalançado com a noção do desafio que representa dar acesso, de forma equitativa, aos doentes a estas terapêuticas.

Foi para perceber as mais-valias que a imuno-oncologia representa no tratamento da doença oncológica e estabelecer recomendações de como o Serviço Nacional de Saúde poderia evoluir no contexto deste avanço terapêutico que participei no primeiro Consenso Estratégico sobre o Valor da Imuno-Oncologia em Portugal.

O grupo de trabalho, criado pelo Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa, juntou os principais atores da oncologia em Portugal - além da Liga, representantes da ciência, da gestão da saúde, do poder político e médicos. Em conjunto procurámos encontrar eficiências no sistema, melhorar as insuficiências e permitir a prestação da melhor assistência possível aos doentes. E perceber também, e aqui ficou o grande desafio, como alinhar a aplicação da imuno-oncologia no âmbito do financiamento e da sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde.

Não foi uma discussão fácil. Mas em conjunto conseguimos chegar a consenso sobre que estratégias poderão ser seguidas para permitir a utilização desta inovação terapêutica, com segurança, e de forma equilibrada para o SNS. Desde logo, o desenvolvimento de mecanismos criteriosos de seleção dos doentes, do seu acompanhamento e monitorização da resposta à terapêutica. Aqui, torna-se fundamental a uniformização de procedimentos, a partilha de experiências e de boas práticas por redes de afiliação regional por patologia. Em resultado, o desenvolvimento de um registo oncológico nacional único permitirá o seguimento dos resultados obtidos.

No que se refere ao doente, que tem expectativas e esperança, deverá ser mais e melhor informado para evitar situações de desespero e reivindicações (algumas delas ainda altamente pertinentes). A Liga Portuguesa contra o Cancro e todas as associações de doentes na área da doença oncológica assumem neste contexto um papel essencial de promotores da literacia do doente e dos seus familiares.

O tempo de nos pugnarmos só e apenas sobre a aprovação de fármacos inovadores para o tratamento da doença oncológica já deveria ter passado. Aquilo que o futuro, a investigação e o desenvolvimento científico nos trazem é ainda, em grande medida, uma incógnita. Para já, o que sabemos é que temos doentes com esperança redobrada de sobrevivência. Alguns são doentes crónicos, com cancros perfeitamente geríveis. Não podemos continuar a usar palas e apenas exigir que os governos deem acesso à inovação, temos de perceber e trabalhar em conjunto para conseguirmos desenvolver estratégias que permitam trazer essa inovação a todos. No desenvolvimento desta estratégia, as associações de doentes, as ordens profissionais, as sociedades científicas, as farmacêuticas e outros stakeholders devem assumir um papel no equilíbrio ao acesso à inovação com sustentabilidade do SNS. Só assim conseguiremos convencer políticos e governo!

Ao longo do último ano, este grupo de trabalho deu um primeiro passo. Agora urge continuar a caminhar. Há muito trabalho a realizar, nomeadamente na investigação, na seleção de doentes, no fluxo de financiamento e na gestão justa das expectativas dos doentes.

Presidente da Liga Portuguesa contra o Cancro

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