Ciência e Internet: garantir o acesso a informação rigorosa em saúde e nutrição

O acesso à Internet, ou seja, a um número enorme de computadores em rede e a muita da informação neles contida é, em termos históricos, bastante recente. Para os nascidos nas últimas duas ou três décadas o acesso a toda esta informação pode parecer normal e até natural, mas nem sempre foi assim.

Com esta explosão de dados e opiniões disponíveis a todos, também a forma como olhamos para a saúde mudou. É este debate que constitui o tema central do próximo Congresso de Nutrição e Alimentação da Associação Portuguesa de Nutrição, que decorrerá no Centro de Congressos de Lisboa, nos dias 10 e 11 de maio.

A área da Nutrição é, a nosso ver, uma das que mais foi moldada por esta realidade e nem sempre no sentido correto. Por um lado, a Internet tem sido um meio poderoso no sentido de consciencializar as populações acerca da influência da dieta na nossa saúde. Segundo dados recentes, a má alimentação é o fator que mais anos de vida com saúde tira aos Portugueses e esta noção é hoje muito mais prevalente do que antes. Igualmente, é a Internet que permite hoje o acesso generalizado de cientistas e profissionais de saúde ao sempre crescente manancial de informação científica disponível, contrastando com o carácter quase exclusivo das antigas bibliotecas. Não temos dúvidas em afirmar que este é certamente um fator muito positivo desta tecnologia.

Todavia, nem sempre o acesso livre a tanta e tão diversa informação se revela ao serviço de uma melhor alimentação e nutrição para todos. São vários os fatores que para tal contribuem e dos quais gostaríamos de destacar os seguintes:
Em primeiro lugar, a já referida explosão da informação científica, sendo em si mesma altamente positiva, nem sempre produz resultados indiscutíveis e não raramente produz mais perguntas que respostas definitivas. A dificuldade em simplificar esta informação, de produzir respostas do tipo sim/não, permite que quem, por ignorância ou desonestidade, faz esse tipo de síntese e forneça certezas, acabe por ganhar uma popularidade que a capacidade da Internet em difundir ideias torna ainda mais fácil.

Em segundo lugar, é também a Internet parcialmente responsável pela disseminação de uma cultura de relativismo absoluto a que assistimos atualmente. Esta corrente, que nos tem trazido os "factos alternativos" ou a emergência das chamadas "medicinas alternativas" e que desvaloriza o conhecimento científico tem dado corpo às verdadeiras atrocidades alimentares e nutricionais a que assistimos, impotentes para as contrariar.

Por último, não podemos esquecer que a Internet permite hoje, por parte de empresas especializadas, a aquisição de muita informação pessoal sobre cada um de nós, disponibilizando-a, em troca de muito dinheiro, a quem dela queira fazer uso comercial, por exemplo, permitindo dirigir a publicidade a determinados produtos (ou serviços, ou ideias) com uma precisão nunca antes possível. Esta capacidade de moldar o nosso comportamento pode certamente ser aproveitada para a promoção de produtos ou serviços na área da alimentação, condicionando assim de forma subtil as nossas escolhas, as tais que são determinantes para a nossa saúde.

A questão é pois, como "sobreviver" neste oceano de informação? Não existe uma resposta definitiva, até porque a dinâmica de todo este sistema é enorme. Mas se começarmos por não crermos em tudo o que lemos na "Internet", se formos criteriosos nos locais onde procuramos informação, preferindo agências oficiais, universidades ou associações científicas credíveis e não nos deixarmos influenciar por alguém só porque nos dá as respostas que queremos ouvir, então estaremos muito mais perto de beneficiar deste instrumento tão poderoso. Tal como os alimentos que escolhemos, também a informação deve vir de fontes "saudáveis" e não contaminadas, seja com interesses comerciais, políticos ou outros.

Presidente da Comissão Científica do Congresso de Nutrição e Alimentação da Associação Portuguesa de Nutrição

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