Carlos do Carmo, vida feita em história do fado

Intérprete e figura central no meio do fado, responsável pela renovação do género a partir dos materiais mais centrais desse universo musical.

Nascido no meio do fado (sua mãe era a celebrada cantora Lucília do Carmo e o pai empresário de uma casa de fado) teve contacto privilegiado com a geração que havia estabelecido os fundamentos do que hoje entendemos por fado (de Alfredo Marceneiro a Amália Rodrigues). Profundo conhecedor desse universo (ainda que sempre dissesse estar ainda a aprender), foi também responsável pela renovação do género projetando-o para o futuro de que hoje nos orgulhamos.

Carlos do Carmo via a sua primeira gravação como "uma provocação", e hoje podemos ver como a síntese do que iria ser o seu papel no futuro do género: O seu primeiro EP (editado em 1963) tem acompanhamento musical do maestro Mário Simões e o seu quarteto e nele interpreta o fado "Loucura" (letra de Júlio de Sousa e música de Frederico de Brito), fado do repertório de sua mãe. Este seria o primeiro fado que gravou.

De uma prática artística de elevada qualidade musical, marcada por uma interpretação cuidada, assente nos elementos musicais, culturais, poéticos e interpretativos do fado soube também aprender com referências musicais exteriores ao domínio (da bossa nossa, aos novos cantores francófonos como Brell). Essas influências e os músicos e compositores com que sempre trabalhou constituem o segundo grande processo de renovação do fado (o primeiro terá sido o grupo Amália- Oulman - Mourão-Ferreira - Hugo Ribeiro).

A decisão de interpretar todas as canções candidatas ao festival da canção de 1976, e a gravação do disco Um Homem na cidade (1977) em que interpreta fados em que se explica poeticamente a cidade de Lisboa em letras de Ary dos Santos e músicas de José Luís Tinoco, Paulo de Carvalho, António Victorino d"Almeida, Martinho d"Assunção e Fernando Tordo, consolidou Carlos do Carmo como eixo central para a renovação do fado, um processo que viria a garantir o futuro que hoje conhecemos.

Esse esforço de renovação acontece precisamente num contexto de profunda crise, relativamente à qual Carlos do Carmo reage: mantém aberta a casa de fados fundada pelos seus pais tornando-a uma dos mais importantes centros da vida fadista e local de referência para ouvir fado na cidade de Lisboa; envolve-se na criação de editoras discográficas que não só publicaram discos seus mas os de outros interpretes mesmo de outros domínios que não conseguiam ver os seus trabalhos editados. Essa renovação é também poética, fazendo um corte com o lado mais resignado da tradição poética-cultural do fado trazendo a ideia de um "homem novo" que projeta para o futuro, que reage ao contexto... esta nova poética será para sempre tida como "fado novo".

Nos últimos anos da sua carreira trouxe novos e inesperados poetas para o fado: José Saramago, Maria do Rosário Pedreira, Nuno Júdice, Fernando Pinto do Amaral, Vasco Graça Moura, Júlio Pomar.

Torna-se um ativo agente de promoção do fado na televisão com a produção e apresentação de diversos programas (do Convívio Musical à série documental Trovas Antigas, Saudade Louca) e, sobretudo, no esforço de reconhecimento (hoje inequívoco) do fado como património central para o país, primeiro, nacionalmente, apoiado a criação do Museu do Fado (fundado em 1998) e depois, internacionalmente, como figura central na candidatura do fado a Património Cultural Imaterial da UNESCO (2011) e o reconhecimento internacional definitivo. A própria indústria fonográfica viria a celebrar a sua carreira atribuindo-lhe o primeiro Grammy dado a um intérprete português (Latin Grammy)

Tocou com os maiores instrumentistas do fado, como Fontes Rocha, Chaínho, José Manuel Neto, Carlos Manuel Proença, entre tantos outros. Mas também atuou e gravou com interpretes de outros domínios como o caso de Bernardo Sassetti (em 2010) e Maria João Pires (em 2012). O seu último disco de gravações originais (Fado é amor 2013) é o símbolo de transmissão de todo esse saber para o o futuro. Nesse disco reinterpreta fados centrais do seu repertório com os interpretes da nova geração (Camané, Mariza, Carminho, Ana Moura, Ricardo Ribeiro, Raquel Tavares, Cristina Branco, Marco Rodrigues, Mafalda Arnauth) e um testamento poético e pessoal, que fecha o disco um dueto tecnicamente viabilizado com a sua mãe Lucília do Carmo, o primeiro fado que interpretou.

A sua carreira, com mais de cinco décadas, e o seu exemplo, serão sempre fonte de inspiração, mas também vida feita em história do Fado, legado artístico maior e que constitui uma parte tão importante do património cultural português. A cultura portuguesa perdeu hoje uma das suas vozes e um dos seus contadores de histórias que formam, no fundo, a nossa história.

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