Bonecos de Estremoz também retratam o que somos e valemos

É sempre estimulante e saudável conseguirmos lembrar que existe Portugal para além do futebol e que esse Portugal, por sinal bem mais antigo, não precisa de botas de ouro, de estátuas, de bustos e de uma obsessiva cobertura mediática. A vida e a realidade também são outra coisa. Os tradicionais bonecos de Estremoz, integrados numa tradição com pelo menos três séculos, chegaram a uma ilha da Coreia do Sul, em zona de grande tensão política e militar internacional, e obtiveram o reconhecimento da UNESCO como Património Imaterial da Humanidade, levando o aplauso e a celebração que já consagraram o fado para outro domínio.

É sabido até que ponto a decisão da UNESCO veio mudar a vida do fado, dos fadistas e de toda a animação musical e conceitos de entretenimento que envolvem o sector. O fado que a UNESCO consagrou universalizou-se e criou uma dinâmica de atractividade internacional que dá trabalho a muita gente, criando espaço para novos talentos criativos e interpretativos.

Com os bonecos de Estremoz não irá ser assim, mas é previsível e desejável que a vida naquela zona do Alentejo venha a ter ganhos reconhecidos e visíveis, que poderão ir da restauração à indispensável e adequada comercialização e crescente internacionalização dos bonecos.

Quem conhece Portugal e se habituou, mesmo quando não havia a rede viária de hoje, a conhecê-lo por dentro, a procurar os restaurantes de qualidade e as bancas e centros de venda de olaria popular, depressa se deixou conquistar por estes bonecos com pelo menos 300 anos de história, que nasceram das mãos talentosas das santeiras e depois se converteram numa colorida e intensa arte popular capaz de nos atrair e seduzir.

Falo da minha experiência pessoal como coleccionador irregular e atípico desta arte que influenciou as tradições artesanais do Brasil e nos fez e faz pensar num Portugal rural mas viajante e cosmopolita que, sem largar as raízes fundas que tinha na terra, cruzou mares e conheceu outros povos e culturas, deixando neles a marca de uma sensibilidade e de um bom gosto que agora conquistou o aplauso sempre estimulante da UNESCO, no meio de quase meia centena de candidaturas de muito diversificadas origens.

Mesmo quem não conhece o processo, pode imaginar a complexidade da candidatura e deve saudar quem a construiu e tornou apelativamente visível. Destaque-se o facto de ser a primeira vez que a UNESCO consagra uma forma de expressão criativa com estas características.

Sublinhe-se também o facto de a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI) mostrar um interesse crescente pela dimensão criativa deste tipo de arte. Estas artes têm autores e têm formas concretas de ser estudadas, protegidas e divulgadas num mundo global em que tudo tende a ser imagem para se poder expandir e conseguir sobreviver e circular.

Agora vai haver maior procura, mais entusiasmo, mercado mais dilatado e com isso devem ganhar a autarquia e a região de turismo. Aquilo que nasceu como arte santeira nos salões das casas nobres depois chegou ao povo, conquistou as feiras e os mercados e atravessou momentos de grande incerteza. Os artesãos vão passar o testemunho a gente mais nova e criar novos nichos no mercado de trabalho. Os bonecos merecem ganhar uma nova vida e mostrar que Portugal também se molda e vive com as estas formas, cores, imaginação e engenho criativo. Nós, em suma, também somos isto.

Agora, sem banalizar as asas que a UNESCO pode dar a formas populares de criatividade, deve pensar-se também na jornada de consagração que o cavaquinho, que Júlio Pereira exemplarmente defende e toca, pode cumprir, atraindo novos intérpretes e fabricantes. O cavaquinho correu o mundo e deixou raízes desde o Brasil ao Havai, passando pela Indonésia e por tantos outros lugares em que os portugueses também estiveram. Com todos estes capítulos pode e deve contar-se a nossa história, história de quem, sendo pobre e periférico, nunca desistiu de descobrir o mundo e de nele querer deixar sinais palpáveis da sua existência e criatividade.

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