As Nações Unidas de que precisamos

Há dias recordava que a música de fundo do discurso de vitória de Donald Trump tinha sido uma extraordinária canção dos Rolling Stones que no refrão afirma: nem sempre conseguimos o que queremos, mas se tentarmos, às vezes, encontramos aquilo de que precisámos.

Não creio que tenha sido fortuita a escolha. Acredito até que esta será o mantra do reinado Trump: ele vê-se a si mesmo como aquilo de que os Estados Unidos da América, o mundo e, claro está, a ONU precisam.

É, todavia, curioso que um não-político tenha uma visão tão providencial de si mesmo e do seu papel na governação global. Achava mesmo que esse tipo de autoperceção estava reservada a uns poucos políticos que se viam como pais da história, timoneiros, queridos líderes.

Olhando para a relação que os EUA, e logo Trump, terão com a ONU, creio que as mais recentes pronúncias via Twitter acusando a Organização de ser um clube de amigos ou uma entidade que não resolve problemas mas outrossim os cria, ditam um tom de um grande pragmatismo, feito oportunismo.

Os EUA têm uma relação umbilical com a ONU que deve a um presidente americano o seu próprio nome; a coluna dorsal das Nações Unidas foi desenhada em Dumbarton Oaks, nos EUA. A sede da Organização é em Nova Iorque, nos EUA, e estes são os responsáveis por cerca de 20% do orçamento da mesma.

É evidente que a relação das administrações norte-americanas com a ONU oscila entre um entusiasmo moderado e um cinismo acentuado. E se a administração cessante deu relevo e visibilidade à organização é de esperar que a incumbente seja mais recatada e acene com o seu poder de veto de forma mais assertiva.

A Síria será apenas um dos primeiros testes; a expectável aproximação de Trump a Puttin servirá para forjar acordos e resoluções, mas China, Reino Unido e França, membros permanentes do Conselho de Segurança, serão fiéis da balança ou bloqueadores, dependendo da relação bilateral que cada um estabeleça com os EUA.

Guterres, que elegeu a prevenção como abordagem fulcral, afirmou a sinergia inquebrável entre direitos humanos, paz e segurança e desenvolvimento, anunciou a reforma da arquitetura de paz e da própria Organização, a centralidade da Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável e dos Jovens, terá em Trump um aliado interesseiro. Criticando a ONU, Trump reconhece-lhe a centralidade, desde que se molde à imagem que tem do mundo. E isso raramente é do interesse de todos "nós, os povos das Nações Unidas". A relação entre ambos será determinante para que a ONU cumpra o seu desígnio maior e que é o de Guterres também: construir um mundo melhor. Será que conseguiremos ter a ONU de que precisamos?

Ex-secretária de Estado da Defesa e professora no ISCSP-UL

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