Aristides de Sousa Mendes merece o Panteão Nacional

No momento em que se debate a existência de ideias racistas e xenófobas, faz sentido que se evoque e celebre o exemplo de Aristides de Sousa Mendes

Agora que passou mais um aniversário do nascimento do diplomata Aristides de Sousa Mendes, herói da luta pelos direitos humanos durante a Segunda Guerra Mundial, faz sentido que se debata a oportunidade do envio dos seus restos mortais para o Panteão Nacional, onde, pela vitalidade do seu exemplo cívico que tão duramente pagou no plano profissional e político, sem dúvida merece estar.

Recordo-me do dia em que, estando de visita ao Museu Yad Vashem em Jerusalém, vi a árvore e a placa que homenageiam o diplomata português, associando--o à resistência dos judeus à perseguição nazi e à violência do Holocausto. Nascido em Cabanas de Viriato em 19 de Julho de 1885, com um irmão gémeo que teve responsabilidades políticas durante a ditadura, Aristides de Sousa Mendes teve a coragem, quando era cônsul de Portugal em Bordéus, de assumir, sofrendo as consequências políticas, a defesa intransigente dos direitos de milhares de refugiados judeus, dos quais mais de 10 mil chegaram a Portugal, muitos deles a caminho da liberdade e de uma nova vida nos Estados Unidos, no Brasil, no México e noutros países onde podiam viver em liberdade, sem a ameaça dos campos de extermínio em que tantos acabaram os seus dias de forma trágica.

Aristides de Sousa Mendes já em finais de 1939 ficara impedido por Salazar de emitir vistos. Quando as tropas nazis ocuparam França e desfilaram em Paris, o cônsul português voltou a emitir vistos, só que desta vez numa quantidade assombrosa, considerando os escassos meios humanos e técnicos de que dispunha. Era católico e ideologicamente conservador, mas compreendeu com clareza e valentia que só podia ser um o seu caminho: o da solidariedade com quem viajava desesperadamente em busca da liberdade e do direito à vida.

Em 23 de Junho de 1940, Salazar demitiu-o das funções de cônsul. Foram muito duras as consequências profissionais e pessoais do seu acto de bravura e humanidade. Morreu praticamente na miséria, tudo fazendo para assegurar a sobrevivência da sua família, embora estivesse privado do vínculo à administração pública que lhe poderia e deveria assegurar o posto de trabalho como diplomata.

No momento em que se debate a existência de ideias racistas e xenófobas com um candidato autárquico do PSD a pôr em causa a situação dos ciganos em Portugal e em que até elementos da PSP parecem ter estado envolvidos em comportamentos racistas e violentos contra jovens residentes nas Cova da Moura, faz sentido que se evoque e celebre o exemplo de Aristides de Sousa Mendes e se defenda a consagração do seu acto de coragem no Panteão Nacional.

Nacional, onde estão escritores, artistas e outras destacadas personalidades da vida nacional.

Regressando a Portugal em 8 de Julho de 1940, Aristides de Sousa Mendes viu-se privado do seu cargo diplomático, com o salário reduzido a metade e sem a possibilidade de trabalhar como advogado, sendo como era licenciado em Direito. Até a sua carta de condução emitida no estrangeiro lhe foi retirada pela ditadura. A família numerosa ficou sem sustento e só a solidariedade internacional permitiu que alguns filhos fossem estudar nos Estados Unidos. Dois dos seus filhos participaram como militares no desembarque dos Aliados nas praias da Normandia. Nessa época terá dito um dia: "Também nós somos refugiados."

Aristides de Sousa Mendes morreu em 3 de Abril de 1954 num hospital franciscano em Lisboa. Foi enterrado com uma túnica daquela ordem monástica por não ter fato próprio.

Dos cerca de 30 mil vistos que emitiu em França, mais de 10 mil foram destinados a judeus em fuga da ameaça do Holocausto. Em 1961 já tinham sido plantadas 20 árvores em sua homenagem no Museu Yad Vashem em Jerusalém, onde o recordam e celebram como um "justo entre as nações". O seu exemplo pode ainda hoje ajudar muitos portugueses a perceber que a religião, a origem étnica e a ideologia não podem ser factores de exclusão quando temos de decidir sobre os direitos dos cidadãos e o seu lugar na sociedade e na vida. O Panteão Nacional é o lugar certo para sublinharmos a importância do exemplo que legou ao mundo em Junho de 1940. Mesmo agora é tempo de lhe fazermos justiça.

Escritor, jornalista e pres. Soc. Portuguesa de Autores

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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