António Arnaut: um dos melhores de todos nós

Era um homem bom, generoso, justo, combativo e sempre solidário que tinha o desejo de ser reconhecido como poeta e que deixou vasta obra publicada nessa e noutras áreas da literatura, incluindo o ensaio e a ficção.

Com a sua morte, Portugal perde uma das mais estimadas e admiradas figuras de referência da sua vida democrática e também da resistência à ditadura, em que se destacou como advogado e também como apoiante em Coimbra da candidatura do general Humberto Delgado à Presidência da República em Maio e Junho de 1958.

Foi um dos fundadores do PS na Alemanha, era o seu presidente honorário após a morte de António Almeida Santos e orgulhava-se de ser o militante número quatro daquele partido que não só ajudou a fundar como preparou para ter um percurso político sólido e determinante ao tornar--se membro da Acção Socialista em 1965.

Da obra que deixou, publicada e cumprida, fica, com merecido destaque, o Serviço Nacional de Saúde, que concebeu como ministro dos Assuntos Sociais do II Governo Constitucional. Essa sempre foi a sua coroa de glória política, que assumiu até ao fim da vida, batendo-se por ela no plano das ideias e dos princípios, como aliás se viu no livro recente que publicou com João Semedo, ex-coordenador do Bloco de Esquerda.

Sempre lhe reconheci a generosidade, a profunda convicção democrática, o amor à cultura e a solidariedade que a sua intensa experiência maçónica acentuava e fortalecia. Foi, convém não o esquecer, grão-mestre do Grande Oriente Lusitano entre 2002 e 2005.

No final dos anos 1990, tive o gosto de o ter como convidado inaugural do programa de televisão A Política na Gaveta, que criei e apresentei no Canal de Notícias de Lisboa. Também por lá passaram Marcelo Rebelo de Sousa, José Tengarrinha e outas figuras destacadas da nossa vida cívica e política. Nesse programa dizia não ter o desejo de regressar à política activa, embora nunca renunciasse aos compromissos da cidadania e da luta empenhada pela liberdade e pela democracia.

Em Maio de 2017, propus a atribuição da Medalha de Honra da Sociedade Portuguesa de Autores ao cidadão e ao escritor, mas ele, então hospitalizado, não pôde vir recebê-la a Lisboa. Foi-lhe depois entregue em Coimbra. Mas, mesmo hospitalizado, ligou-me várias vezes a dar-me conta da alegria de ter sido homenageado e escrevendo uma carta em que comovidamente o sublinhava.

Na Guerra Colonial foi mobilizado para Angola, para a zona de combate de Nambuangongo, onde acabou por perder a fé. Fora subscritor de uma carta de católicos dirigida a Salazar, o que fez que a PIDE nunca mais deixasse de lhe seguir os passos e de o perseguir.

Deixou a vida partidária activa em 1983 e regressou à vida como advogado, reconstruindo um percurso que os anos na vida política em Lisboa haviam prejudicado. Nunca quis escrever um livro de memórias, mas muito do que viveu, pensou e sentiu ficou vertido nos livros que publicou, nos de poesia e nos outros, e que eram uma parcela importante da sua intensa e exemplar caminhada como cidadão e homem solidário. Morreu, sem margem para qualquer dúvida, um dos melhores de todos nós.

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