A UE deve reconhecer o Estado palestiniano

Mais uma vez o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, adotou uma abordagem unilateral da política externa. Desta vez, reconhecendo Jerusalém como a capital de Israel. E mais uma vez Trump interpretou mal a realidade do Médio Oriente. Dado que o seu último passo - que dinamitou efetivamente mais de 70 anos de consenso internacional - poderá precipitar uma deterioração rápida na região, é imperativo que a União Europeia intervenha.

A política do governo Trump para o Médio Oriente baseia-se numa aliança robustecida entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita. Todos os presidentes americanos desde John F. Kennedy fizeram a sua primeira visita ao estrangeiro ao México, ao Canadá ou à Europa. Não foi o caso de Trump. Ele foi direito a Riade, onde participou numa cimeira com 54 países de maioria muçulmana e fez um discurso inflamado vilipendiando o Irão, que, segundo ele, deveria ser banido pela comunidade internacional.

Depois da Arábia Saudita, Trump fez uma visita a Israel, onde insistiu na retórica anti-iraniana. A Arábia Saudita e Israel não mantêm relações diplomáticas, mas ambos são aliados dos EUA e têm em comum a oposição ao Irão. Em novembro, o chefe das Forças de Defesa de Israel, o tenente-general Gadi Eisenkot, expressou ainda a abertura para partilhar informações com a Arábia Saudita para combater o Irão. "Com o presidente Trump há uma oportunidade de construir uma nova coligação internacional na região", disse Eisenkot à publicação saudita Elaph.

A aproximação israelo-saudita tem tido a ajuda do novo príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman (M.B.S.), que está a seguir um programa de modernização tanto internamente como em termos de política externa. No início deste mês, correram rumores de que M.B.S. propôs um plano de paz israelo-palestiniano que teria sido altamente favorável a Israel, embora os governos dos EUA e da Arábia Saudita tenham negado essas notícias.

Em todo caso, Trump quis claramente aproveitar essas circunstâncias para dar um golpe diplomático. E no entanto a sua decisão sobre Jerusalém obriga os sauditas a enfrentar um dilema: dar maior prioridade à defesa da causa palestiniana ou normalizar as relações com Israel como meio de conter o Irão.

Alguns sauditas parecem ter esperança na segunda hipótese, propondo deixar de lado questões espinhosas sobre o estatuto de Jerusalém e os palestinianos em geral. Trump também tentou matizar a sua declaração afirmando que não estava a tomar uma posição sobre os limites geográficos específicos da soberania israelita em Jerusalém e que a embaixada dos Estados Unidos não seria deslocada de Telavive imediatamente.

Mas como disse Martin Indyk, ex-enviado especial dos EUA para as negociações israelo-palestinianas: os americanos "podem tentar ao máximo conter os danos, mas não o conseguirão, porque Jerusalém é uma questão demasiado sensível". Essa realidade refletiu-se na explosão de protestos de rua em todo o Médio Oriente logo após o anúncio de Trump, embora não tenha ocorrido a violência em larga escala que alguns temiam.

Mais revelador ainda, a Organização da Cooperação Islâmica realizou uma cimeira extraordinária em Istambul, onde os seus membros reafirmaram "a centralidade da causa da Palestina e de Al-Quds Al-Sharif [Jerusalém] para a Ummah muçulmana", reconheceram Jerusalém Oriental como a capital da Palestina e condenaram fortemente as ações de Trump.

Nenhum muçulmano, ao que parece, está preparado para esquecer que Jerusalém abriga a mesquita de Al-Aqsa, o terceiro lugar mais sagrado do islão. O rei Salman, da Arábia Saudita, referiu-se à mesquita quando advertiu Trump do quão prejudicial seria a decisão de Jerusalém. E quando Trump anunciou a decisão de qualquer maneira, o reino criticou-a como "injustificada" e "irresponsável".

A verdade é que a Arábia Saudita não pode distanciar-se da causa palestiniana e permitir que outros países como a Turquia ou mesmo o Irão levem a bandeira. Isso equivaleria a um erro tático parecido com o corte de relações com o Qatar há alguns meses. Também seria difícil, senão impossível, que os sauditas apoiassem de repente um plano radicalmente diferente da Iniciativa de Paz Árabe, conhecida como "iniciativa saudita", que foi aprovada em 2002 e avalizada pela Liga Árabe neste ano.

Assim, o cenário de sonho de Trump - em que a Arábia Saudita se alia a Israel para pressionar os palestinianos a fazerem a paz - não se materializará. Primeiro, a Arábia Saudita não está em condições de renunciar às reivindicações árabes em Jerusalém. Em segundo lugar, uma estratégia que não dará aos palestinos o direito de terem uma palavra a dizer sobre o seu destino e o destino de Jerusalém nunca terá sucesso. E, em terceiro lugar, a administração Trump, incluindo o seu genro, Jared Kushner, a quem Trump confiou o papel dos EUA no processo de paz israelo-árabe, é formada por empresários e não por políticos, como o próprio Kushner salientou recentemente. Mas Jerusalém e o conflito israelo-palestiniano, de forma mais ampla, são assuntos demasiado perigosos para serem tratados como um negócio.

Embora Trump não tenha descartado a solução dos dois Estados - a abordagem aprovada pelas Nações Unidas -, ele pode ter-lhe dado o golpe fatal. A única maneira de a salvar, ou mesmo conseguir que os israelitas e os palestinianos voltem à mesa de negociações, é trabalhar em prol de uma solução mais equitativa para os dois lados. Aqui, a UE deve assumir a liderança e enviar uma mensagem tão vigorosa quanto o necessário, ao reconhecer de imediato - como mais de 70% dos Estados membros da ONU já fizeram - o Estado da Palestina.

O caminho para uma solução de dois Estados deve começar com a Iniciativa de Paz Árabe, que estipula que a Liga Árabe reconheceria Israel se este recuasse para as suas fronteiras anteriores a 1967, embora uma abordagem alternativa, mais gradual, pudesse ser considerada. A solução dos dois Estados, que permitiria a Israel manter o seu carácter judaico e democrático e garantir a viabilidade do Estado da Palestina, ainda representa a maneira mais credível de se conseguir sair do atoleiro israelo-árabe. Mas se quisermos alcançar a "separação devido ao respeito" que Yitzhak Rabin imaginou na década de 1990, não há tempo a perder: o ponto sem regresso está cada vez mais próximo a cada dia que passa.

Javier Solana foi alto representante da UE para a Política Externa e de Segurança, secretário-geral da NATO e ministro dos Negócios Estrangeiros de Espanha. Atualmente é presidente do Centro para a Economia Global e Geopolítica da ESADE e membro distinto da Brookings Institution

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