A oportunidade iraniana

No dia em que os iranianos foram às urnas, Trump estava a caminho da Arábia Saudita, uma escolha notável para a sua primeira viagem oficial ao exterior. Esperemos que a sua breve visita ao Médio Oriente ajude a criar condições favoráveis para o progresso rumo à paz na região

Na semana passada, o povo do Irão decidiu continuar a percorrer o caminho da abertura ao exterior. O presidente reformista Hassan Rouhani foi eleito para um segundo mandato com 57% dos votos. O resto do mundo deve acolher a vitória de Rouhani como mais uma oportunidade para melhorar as relações com um país que é fundamental para a evolução rumo a um Médio Oriente mais pacífico.

Ao vencer com mais de 50% dos votos, Rouhani evitou uma segunda volta, tal como fez há quatro anos, quando assumiu a presidência pela primeira vez. Mas ao contrário de 2013, quando a sua vitória esmagadora foi uma grande surpresa, desta vez a maioria dos observadores considerava Rouhani o claro favorito. Afinal, todos os presidentes iranianos desde 1981 cumpriram dois mandatos.

O triunfo de Rouhani era provável, mas a votação não era uma mera formalidade. O seu principal opositor, o conservador de linha dura Hojatoleslam Ebrahim Raisi, fez uma campanha dura e teve o líder supremo do Irão, o ayatollah Ali Khamenei, implicitamente do seu lado. A vitória de Rouhani provou mais uma vez que o candidato mais próximo do líder supremo não tem a vitória garantida.

O que estava em jogo nestas eleições era especialmente importante. O Irão está num momento crucial da sua história e, como mostraram claramente as longas filas de cidadãos ansiosos por votar, os iranianos sabem disso. De facto, apesar da falta de transparência do regime iraniano, os problemas de saúde de Khamenei são do conhecimento público. O próprio Khamenei admitiu recentemente que a probabilidade de que o seu sucessor fosse nomeado num futuro próximo "não era baixa".

A questão de quem ocupa a presidência durante essa transição não é de somenos. Com Khamenei tendo sido presidente antes de ser promovido à mais alta posição da liderança política e religiosa do Irão, é fácil ver que o candidato conservador Raisi, se tivesse sido eleito, poderia ter-se tornado o sucessor de Khamenei. No entanto, a vitória decisiva de Rouhani pode ter diminuído substancialmente as possibilidades de Raisi.

As perspetivas do Irão parecem muito diferentes com Rouhani no comando. A sua retórica sobre a abertura não é mera postura política. Talvez a prova mais forte disso seja o acordo nuclear que ele alcançou com seis países - China, França, Alemanha, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos - e a União Europeia em 2015. Esse acordo estabeleceu limites muito rígidos ao programa nuclear iraniano em troca do alívio das sanções económicas incapacitantes impostas pelos EUA, pela União Europeia e pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas.

É verdade que o presidente do Irão está subordinado ao líder supremo. E, de facto, o acordo nuclear não poderia ter sido alcançado sem a aprovação de Khamenei, o que ajuda a explicar a razão por que nenhum candidato questionou o acordo durante a campanha. No entanto, o presidente exerce uma autoridade significativa, inclusive sobre a política interna, que foi o foco principal da campanha (como é normalmente o caso no Irão).

Em particular, Rouhani e Raisi tentaram distinguir-se pelas suas interpretações muito diferentes do impacto económico interno do acordo nuclear. Rouhani atribuiu ao acordo o salto do crescimento económico, que está agora em cerca de 7% ao ano. Os seus detratores, no entanto, alegaram que esse crescimento refletiu principalmente as maiores exportações de petróleo e salientaram que ele não abrangeu todos os níveis da sociedade, deixando ainda muitos lares iranianos a sofrer com a pobreza e o desemprego. Também Khamenei tem sido muito crítico da política económica de Rouhani, pedindo uma abordagem muito mais autossuficiente.

Mas a interpretação de Rouhani dos desafios do Irão é muito mais convincente. Na verdade, o aumento da abertura beneficiou grandemente o Irão. O que está a refrear o país são as barreiras remanescentes que rodeiam a sua economia, incluindo o isolamento do Irão do sistema financeiro global, o que contribui para uma crónica e prejudicial escassez de crédito. As más notícias é que o presidente dos EUA, Donald Trump, que se opôs ao acordo nuclear durante a sua campanha, e o Congresso dos EUA, dominado pelos republicanos, tomaram uma posição de linha dura em relação ao Irão e desencorajam o investimento no país. Isso dá validade política àqueles que acusam Rouhani de ser ingénuo ao esperar que a comunidade internacional dê as boas-vindas a um Irão mais aberto.

Entre esses céticos estão os conservadores representados por Raisi, que olham para o Ocidente com suspeita. Se Raisi tivesse ganho, a desconfiança mútua entre os EUA e o Irão poderia ter transbordado, apesar do apoio expresso de Raisi ao acordo nuclear.

A vitória de Rouhani, no entanto, pode ajudar a moderar a retórica anti-Irão da administração Trump. Na verdade, há poucas semanas a administração foi forçada a admitir que Rouhani está a cumprir a sua parte do acordo nuclear. De facto, a demonstração iraniana de apoio popular a Rouhani fornece a melhor garantia de que o espírito por detrás do acordo nuclear permanecerá inalterado.

Mas Trump não irá facilitar a vida a Rouhani. Para garantir que o Irão continue a progredir no sentido do compromisso internacional - protegendo assim um acordo nuclear que Trump não está ansioso por defender - o governo de Rouhani terá de trabalhar arduamente para melhorar as relações com os países vizinhos. Além disso, precisará de adotar uma posição mais construtiva em relação ao conflito sírio, deixando claro que o Irão não está a liderar um movimento de libertação xiita.

No dia em que os iranianos foram às urnas, Trump estava a caminho da Arábia Saudita, uma escolha notável para a sua primeira viagem oficial ao exterior. Esperemos que a sua breve visita ao Médio Oriente ajude a criar condições favoráveis para o progresso rumo à paz na região. O Irão enviou um poderoso sinal nessa frente. É uma oportunidade que não deve ser desperdiçada.

Javier Solana foi alto-representante da UE para a Política Externa e de Segurança, secretário-geral da NATO e ministro dos Negócios Estrangeiros de Espanha. Atualmente é presidente do Centro de Economia Global e Geopolítica da ESADE, membro distinto da Brookings Institution e membro do Conselho da Agenda Global do Fórum Económico Mundial para a Europa.

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