A lista de Schindler galaico-lusa das irmãs Touza

A incrível história das três irmãs Touza, Lola, Amparo e Julia, que durante anos, desde o coração da Galiza, ajudaram desinteressadamente mais de 500 judeus a fugir do nazismo, desde Ribadavia até Portugal, para depois viajarem até aos Estados Unidos ou até Tânger (Marrocos), é um dos acontecimentos que mais me tem marcado pela positiva nestes últimos tempos de descrença nos outros e de individualismo. Conhecer a que já se denomina "a lista de Schindler galaico-lusa" ajuda-me a acreditar na bondade e na generosidade de muitas pessoas e na importância da discrição e da amizade, no sentido amplo da palavra.

As Touza foram mulheres de garra, inteligentes, corajosas, muito para a frente no seu tempo, nos difíceis e turbulentos anos do pós-Guerra Civil Espanhola, cheios de fome, desencontros e tragédias familiares. As três moravam na histórica vila de Ribadavia (Ourense) a escassos 30 quilómetros da fronteira portuguesa, muito conhecida pelos historiadores por manter ainda de pé uma das judiarias mais importantes da Península Ibérica e o Centro de Estudos Medievais e do Judaísmo na Galiza. Lola, Amparo e Julia, solteiras na altura, geriam o café da estação dos caminhos-de-ferro da cidade, que ainda hoje funciona. Eram muito conhecidas, respeitadas e queridas pela vizinhança, o que as ajudou a estabelecer uma eficaz rede de apoio aos judeus, com a ajuda de alguns amigos, que nunca as traíram.

Deste modo, a rede funcionou na perfeição entre 1941 e 1945. Nesses anos, perto de 600 judeus que fugiram do nazismo desde a Polónia, Alemanha e França chegaram a Ribadavia faseadamente, entrando em Portugal por Trás-os-Montes, pelas rotas do contrabando.

Os judeus, uma vez na vila de Ribadavia, contactavam as irmãs Touza no seu café da estação. Eram elas quem os escondia durante dias nos túneis e esconderijos secretos existentes em muitas casas, desde a perseguição aos judeus no século XVI. Durante a sua estada em Ribadavia, eram elas quem lhes lavava a roupa e dava comida, e quando chegava o momento "eram ajudados a fugir de carro pela montanha, até território português, pelas rotas do contrabando, por alguns taxistas e motoristas, amigos das três, que mantiveram o segredo até à morte". O reputado arquiteto Júlio Touza, neto de Lola, que se converteu em defensor da causa da sua avó e das suas tias, conta que só conheceu a história depois da morte de Lola, em 1995, quando o neto de um dos judeus salvos chegou a Ribadavia para agradecer "aos anjos de Ribadavia", como lhes chamam.

Este familiar de um dos judeus foi ali agradecer o terem salvo a vida do avô, que conseguiu chegar a Nova Iorque.

Esta rede de ajuda funcionou ao longo de quatro anos sem que as autoridades policiais espanholas e os membros da Gestapo, que andavam pela zona, dessem por isso. "Uma vez em território luso tinha de haver alguém que os ajudava a chegar a Lisboa para apanhar um barco ou avião até aos Estados Unidos ou Tânger", conta Júlio. O arquiteto reconhece que ainda tem de se investigar se a rede existiu também em Portugal, mas tal poderá ser muito difícil, pois já passaram quase 80 anos.

O reputado realizador de cinema norte-americano Steven Spielberg, que dirigiu há uns anos o oscarizado filme A Lista de Schindler, com muitas similitudes com a história das Touza, ligou há pouco tempo a Julio Touza porque quer levar ao cinema a história da avó e das tias. Spielberg ficou apaixonado pelo que aconteceu em Ribadavia na Segunda Guerra Mundial, mas a resposta do arquiteto foi: "Ainda se tem de investigar muito os detalhes e por enquanto não é o momento". Julio diz que "Spielberg ficou desiludido porque não está habituado a que recusem as suas propostas, mas é melhor esperar para que o argumento seja o mais real e credível". O ator Al Pacino também ficou apaixonado pela história e deseja ser um dos protagonistas do filme de Spielberg, mas teremos de esperar mais algum tempo para ver "a lista de Schindler galaico-lusa no cinema". Por agora, fica a promessa da família de Lola, Amparo e Julia para abrir um museu em suas memórias, naquela que foi a casa familiar da Ribadavia.

Correspondente da Cadena Cope e de la Voz de Galicia

Mais Notícias

Outras Notícias GMG