A ignorância e a arrogância matam

Números e mais números, comparações com outros países e estratégias de resposta, angústias e esperança de soluções, isolamentos reais e ajuntamentos virtuais. O nosso dia-a-dia está literalmente cheio de vírus: no ar e nas maçanetas das portas, nas televisões e nas redes sociais, nas nossas conversas com as pessoas com quem partilhamos as nossas casas e com aquelas com quem falamos mas com quem não nos encontramos.


No meio disto tudo, vamos olhando para o nosso antigo normal das filas de trânsito e dos empregos e escolas, das idas ao cinema e a restaurantes ou simplesmente podermos entrar num supermercado sem esperarmos na fila e sem usarmos máscaras. E esperamos. Esperamos por voltarmos a ver as pessoas de quem gostamos e até algumas que não gostamos assim tanto, esperamos pelo verão e pela praia, esperamos por voltarmos a sair de casa sem preocupações maiores. Esperamos pelo nosso normal que afinal até era melhor do que pensávamos.


Será que o normal voltará? Se voltar, não será tão cedo. As nossas vidas livres do risco de sermos contaminados só voltarão quando houver uma cura e quando formos todos vacinados: os que cá moram, os que nos visitam, os que moram nos lugares que nós visitamos e os que visitam os lugares que nós também visitamos. Ou seja, quando praticamente todos tivermos imunidade e o Serviço Nacional de Saúde puder tratar facilmente dos poucos que possam ficar doentes.


Divididos entre o passado que não volta tão cedo, o presente que não é sustentável a prazo e o futuro que será vivido à sombra do que já sabemos e do que ainda não sabemos, somos igualmente obrigados a olhar para as escolhas que fazemos enquanto cidadãos e enquanto eleitores. E somos levados a concluir que se alguns parecem saber enfrentar a situação, outros há que não fazem a menor ideia do que estão a fazer.


Esta pandemia não tem ideologia, nacionalidade ou geografia e não distingue as suas vítimas. Para o vírus somos todos potenciais hospedeiros e potenciais vítimas. E isso implica muita ciência e muita política.

A ciência faz o que se lhe pede: estuda o vírus, procura entender como se transmite e como afecta as pessoas, procura as melhores soluções técnicas para o enfrentar e desenvolver um remédio ou uma vacina. Da política, esperamos que escute o que a ciência tem para dizer, considere os instrumentos de que dispõe e distribua os recursos existentes de forma a proteger as pessoas, ao mesmo tempo que prepara o novo futuro até que a ciência encontre a cura que nos permita voltar ao velho passado.


Tanto quanto é possível observar, a ciência tem feito o que dela esperamos e tem-no feito de forma colaborativa, com laboratórios e centros de investigação do Mundo inteiro a partilharem informações e conhecimentos. Já o mesmo não se poderá dizer da política.


Se é verdade que a grande maioria dos países tem ouvido o que a ciência diz e tem feito o melhor que pode para enfrentar a pandemia, há governantes que acham que a ciência não tem nada para lhes ensinar. Esses optam, como sempre optaram, por negar a seriedade da pandemia, a complexidade das soluções e os enormes desafios que enfrentamos. Habituados a discursos simples, a culparem outros e a negarem os factos e a ciência, esses pseudo-lideres não sabem o que estão a fazer e recusam-se a ouvir quem lhes diga o que não querem ouvir.


Esta pandemia tem muitas lições. Uma delas é que a realidade é complexa e que a ignorância e a arrogância matam. Seria bom que nos lembrássemos disso na próxima vez que estivermos numa cabine de voto.

Investigador Associado do CIEP/Universidade Católica Portuguesa (As opiniões expressas neste texto vinculam exclusivamente o seu autor)

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