A escola do futuro está a chegar

Não, a pandemia não é uma oportunidade. Muitos viram as suas vidas colapsar por múltiplas perdas, dos familiares aos empregos e atividades regulares, e estamos longe de ultrapassar este tempo de incerteza que desalojou as nossas vidas. O comentário otimista mais frequente é o da aceleração de processos que sabíamos iriam chegar em breve, com a digitalização em pano de fundo, e que agora se tornaram mais urgentes. O contraponto é que, também, as desigualdades se tornaram mais nítidas e aumentou o fosso entre os que têm e não têm acesso ao digital, entre os que potenciam o seu uso e aqueles que não estão preparados para o alcançar.

A escola tornou-se, decerto, um dos microcosmos em que estas diferenças se acentuaram com consequências que apenas vislumbramos. Mais do que nunca, importa conhecer experiências, partilhar resultados e apostar em políticas públicas que sirvam para estabelecer equilíbrios e afrontar desigualdades. A pandemia veio pôr à prova a capacidade de intervenção dos estados e o valor da cooperação multilateral na sua reflexão-ação.

Ontem, realizou-se a XXVII Conferência Ibero-Americana de Ministras e Ministros da Educação, que reuniu 22 países, tendo como anfitrião Andorra. Esta Conferência insere-se no processo de preparação da Cimeira Ibero-americana de Chefes de Estado e de Governo, este ano subordinada ao tema "Inovação para o Desenvolvimento Sustentável - Objetivo 2030. A Ibero-América face ao desafio do Coronavírus". Na última década, registaram-se importantes progressos no planeta em termos de acesso à educação e aumento das taxas de matrículas nas escolas. A região ibero-americana tem sido uma das que vem registando maior investimento no setor da educação, com um generalizado reconhecimento de que se trata da principal ferramenta de justiça e sustentabilidade social. No entanto, nessa região como em muitas outras, uma parte significativa das crianças e jovens não atingem os padrões mínimos de competências em leitura e matemática e ficam para trás. Podemos, desde já, concluir que esses indicadores se vão agravar com a pandemia e com o encerramento das escolas.

É verdade que, neste período, quase todos os Estados mobilizaram meios para encontrar alternativas ao ensino presencial que mitigassem o impacto nas aprendizagens. A maioria lançou programas que procuraram incluir o digital, o que tornou mais visíveis as diferenças não só entre países, mas sobretudo as assimetrias locais.

Compreende-se, por isso, que a transformação digital da educação tenha sido um dos três temas escolhidos para esta Conferência Ibero-americana (a par da formação ao longo da vida e do empreendedorismo), com intervenções de praticamente todos os países. Os Ministros e Ministras não deixaram de abordar os grandes desafios que enfrentam, num momento em que os números da pandemia obrigaram alguns a iniciar o ano escolar com as escolas fechadas, como é o caso do México. Mas a linha que dominou as intervenções dos responsáveis educativos foi o valor insubstituível do ensino presencial, sem prejuízo dos necessários avanços na introdução do digital.

Tal como Portugal e Espanha, na linha da maioria dos países europeus, que optaram pelo ensino presencial, também Uruguai, Argentina e Colômbia defenderam a reabertura das escolas e o benefício para o desenvolvimento cognitivo e emocional dos alunos. Como bem salientou o Ministro da Educação de Portugal, Tiago Brandão Rodrigues, o digital não pode ser entendido como motor e antes como instrumento da agenda educativa, alertando ainda para a necessidade de evitar os riscos que o digital também comporta, nomeadamente a tendência para a individualização em que cada um se fecha na sua janela.

Num trabalho que vem sendo desenvolvido pela Fundação Santillana em parceria com a Organização de Estados Ibero-americanos, La escuela que viene (www.laescuelaqueviene.org) mostra-se como é preciso ir muito além das tecnologias educativas sem, no entanto, prescindir delas. Conforme comenta nesse estudo Paula Barros, responsável do Programa de Educação da OEI em Portugal, "a pandemia é um momento disruptivo que reforçou o papel central da escola na sociedade, mas também demonstrou que o processo de modernização/adaptação que se deseja é ainda incipiente e, em muitas situações, inexistente". A escola do futuro está a chegar, não tanto pela introdução das tecnologias educativas, mas porque a escola está obrigada a mudar. Com a pandemia, tornou-se mais evidente o fim do modelo pedagógico de transmissão do conhecimento, passivo, desconectado dos interesses dos alunos, entediante. Por outro lado, bastou um curto período de confinamento para que se entendesse a importância da escola, que deixou de ser apenas o lugar onde se vai para adquirir aprendizagens estabelecidas pelos planos curriculares.

Em todos os sentidos, a escola saiu reforçada nas suas várias dimensões e atores (professores, alunos, funcionários, comunidade). Ao mesmo tempo, caiu por terra a ideia de uma desmaterialização da escola e sua substituição por um modelo digital, cujos perigos Cristóbal Cobo analisa no livro com o sugestivo título I accept the terms and conditions. Uses and abuses of digital technologies (Madrid, 2019), processo a que Carlos Magro chama a "descolarização digital", uma escola esvaziada e deslocalizada. Refletindo sobre o sentido da escola em La escuela que viene, Magro mostra como é possível e está a chegar uma escola capaz de diagnosticar e se adequar aos interesses, ritmos e capacidades de cada aluno. Uma escola em que cada um possa ter a sua própria respiração e respirar em conjunto ("conspirar"), uma escola que transforme os conhecimentos e capacidades em bens comuns.

Não se trata de inventar outra escola, mas voltar a pensar e construir o que é a escola do futuro que pertence a todos.



Diretora em Portugal da Organização de Estados Ibero-americanos - OEI

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