A diáspora goesa

Creio não se poder abordar um tema tão complexo e tão abrangente como é o da diáspora goesa sem se colocar algumas questões prévias, pois existiram várias Goas e diversos tipos de diásporas, como seja, a da saída de goeses de Goa para o exterior e destes locais para novos destinos, conforme foram ditando as mais diversas circunstâncias de vida.

Para não ficarmos enrodilhados e sem saída consensual na dificuldade da definição de goês e no intuito de facilitar a análise da questão da diáspora, vou admitir que goês é todo aquele que se sente como tal, independentemente de ter nascido ou não nas várias Goas que foram existindo ao longo do tempo, conforme a sua evolução histórica através dos séculos, e das cambiantes de Goas existentes dentro da actual Goa.

Quanto mais recuamos no passado, maiores se tornam as dificuldades. É provável que no séc. III a.C., esse território tivesse feito parte do império de Ashoka, cujos domínios se estendiam até ao sul de Goa.

Com a sua morte, em 232 a.C., e a fragmentação do império, Goa passou para o domínio dos Kadambas de Banavasi. Um ramo destes Kadambas estabeleceu-se em Goa, formando o reino de Kadambas de Goa. Jayakeshi I elevou a cidade de Chandor (Chandrapura), localizada a sul de Goa, a capital do império, tendo reinado nela em 1052 da nossa era.

Em consequência da expansão muçulmana, progredindo do Norte em direcção ao Sul da índia, Goa foi conquistada pelos correligionários de Maomé no século XIII.

Como tem vindo a ser comprovado ao longo da História da humanidade, por razões mais diversificadas, parte da população local abraça as cores dos vencedores. Assim, face à introdução da nova religião, muitos hindus se islamizaram, enquanto outros preferiram resistir ao invasor ou optaram por se refugiar nos territórios vizinhos.

Ignoramos quantos teriam procurado o caminho da fuga, mas admitimos que esta conquista deve ter provocado um dos primeiros grandes movimentos da diáspora goesa.

Contudo, em 1367, Goa é conquistada pelo Reino de Vijayanagara ou Reino de Bisnaga, o que deve ter provocado nova diáspora, desta vez dos muçulmanos.

Algures, entre 1367 e 1440, os goeses expulsam os seus conquistadores e tornam-se totalmente independente.

Todavia, Goa torna a ser recuperada pelos seguidores de Maomé, com a consequente diáspora de hindus, para em 25 de Novembro de 1510 ser conquistada por Afonso de Albuquerque, com apoio de hindus.

Como muitos muçulmanos, que possivelmente se consideravam goeses, foram passados a fio de espada pelos portugueses, outros expulsos e terceiros procuraram a salvação na fuga, admitimos que, nessa altura dramática, ter-se-á dado o segundo maior movimento da diáspora goesa.

Contudo, o espírito de tolerância religiosa encetado por Afonso de Albuquerque, e a harmonia prevalecente entre vencedores e vencidos, vai ser quebrado quando, a partir de 1540, o padre Miguel Vaz, vigário-geral da índia, inicia o processo de demolição dos templos não cristãos existentes na ilha de Tiswadi.

Ângela Barreto Xavier calcula a destruição de trezentos templos com a concomitante transferência de suas rendas para o culto cristão, provocando não uma diáspora, mas autêntico êxodo de cerca de um terço da população goesa para os territórios vizinhos, perto de cem mil pessoas.

Duas décadas mais tarde, - o nefasto Tribunal de Inquisição, introduzido em Goa, em 1560, e a política de intolerância, perseguição e demolição dos templos prosseguida no tempo do vice-rei D. Antão de Noronha, conforme determinou através do decreto promulgado a 4 de Dezembro de 1567 -, levou mais goeses a abandonar a terra do seu nascimento.

Tirando alguns casos de pouca monta e outros esporádicos, a última grande leva de diáspora de goeses deu-se nas vésperas e após 18 de Dezembro de 1961.

Com a revolução de 25 de Abril de 1974, em Portugal, seguida de descolonização, milhares de goeses e seus descendentes, com maior expressão os residentes em Moçambique, optaram por rumar para Portugal.

No presente, com as incertezas a envolver o porvir do Brexit, é admissível que haja nova diáspora de goeses da Grã-Bretanha.

Reza a História que o pequeno território de Goa em 1510, acrescido de Velhas Conquistas e Novas Conquistas, foi sempre propenso à emigração e imigração. Desde o passado remoto, enquanto os goeses procuravam no exterior aquilo que a sua terra mãe lhes negava, outras pessoas, vindas do exterior, têm vindo a tentar a sua sorte em Goa para nela encontrarem melhores condições de vida do que as proporcionadas nos locais onde viviam.

Na falta de estudos credíveis, sobre países com maior prevalência de goeses e seus descendentes, sobram especulações, baseadas em estimativas cujos critérios são sempre discutíveis. Assim aponta-se, sem rigor científico, para índia, Inglaterra, Portugal, Moçambique, Emirados Árabes Unidos, Paquistão, Quénia, Canadá, Zimbabué, Uganda, Malawi, Austrália, Alemanha, Estados Unidos da América, Brasil, França, Ceilão, Angola e Bélgica, entre outros menos citados. Só um estudo sério e rigoroso, conduzido por uma equipa de investigadores credenciados, esclareceria as lacunas existentes, respondendo a várias perguntas em aberto e proporcionando numerosas teses de doutoramento.

Tratar-se-ia de um trabalho árduo que urge fazer, embora seja uma missão extremamente difícil e uma tarefa hercúlea. Mesmo que haja grande exagero, quando se avança com o número de cerca de cem mil goeses em fuga, em resposta aos excessos cometidos pelos portugueses a partir de 1540, fazer a história genealógica de apenas dez por cento desses fugitivos, escolhendo os mais importantes, assim como o papel por eles e pelos seus descendentes desempenhado nos países de acolhimento, seria um trabalho excelente. Diante das dificuldades encontradas na pesquisa dessa pequena amostragem poder-se-á imaginar o trabalho ciclópico necessário para se estudar, com propriedade, a diáspora goesa.

Como não fiz nenhuma investigação nesse sentido, posso apenas mencionar a minha percepção em relação a Portugal.

Como a sociedade tende a revelar os seus modelos e esconder os fracassos, dos goeses e seus descendentes, que decidiram fixar-se em Portugal, podemos vê-los como ministros, deputados, juízes, escritores, professores, médicos, advogados, engenheiros, militares de alta patente, presidentes da câmara, vereadores, directores executivos em grandes empresas multinacionais, jornalistas ou no desempenho de outras profissões relevantes.

São goeses que contribuem brilhantemente para o progresso do país de acolhimento e honram a terra que os viu nascer a eles ou aos seus ascendentes. Mas não nos eludamos, pois estão longe de representar apenas a nata da sociedade. A maioria passa despercebida como cidadãos comuns e outros vivem com dificuldades que procuram esconder, tal como fazem muitos seres humanos por esse mundo fora.

Tenho perguntado a mim próprio, qual a razão por que os goeses, em regra, são mais bem-sucedidos nos países de acolhimento do que na terra onde viram pela primeira vez a luz de dia. De entre as várias explicações que encontro, parece fazer sentido a seguinte:

Entregues a si próprios só têm um único caminho a seguir: lutar arduamente, enfrentar corajosamente e sem esmorecer todas as dificuldades até alcançar os objectivos pretendidos.

Longe da terra do seu nascimento, sem a pressão nem os olhares vigilantes da comunidade, quase sempre atreita à crítica e adversa às mudanças, o goês desenraizado torna-se um homem novo que se vê obrigado a analisar friamente as difíceis situações em que se encontra e, como nem sempre tem a quem recorrer, luta para sobreviver, sem se importar de fazer aquilo que era impensável na sua terra natal.

Sendo a hodierna Goa povoada, cada vez mais por pessoas vindas do exterior, por ser considerada o eldorado da índia, compete aos goeses originários de Goa, seus descendentes e ascendentes, e a todos os filhos da diáspora, preservar, desenvolver e difundir os seus característicos valores culturais indo-portugueses, e também cultivar e manter viva a chama da singularidade da identidade goesa.

Historiador

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