A cultura deve reforçar a verdadeira aliança pela paz

A ideia de paz é sempre mobilizadora e geradora de inesperadas convergências, mesmo quando se sabe que não há nada tão difícil de alcançar e construir do que a própria paz, sobretudo quando o contexto político, económico e social é sempre gerador de novas tensões e antagonismos. Essas tensões e esses antagonismos podem conduzir a guerras com dimensões e durações imprevisíveis, sendo sabido que as guerras de hoje não são comparáveis, também por razões tecnológicas, aos dois grandes conflitos mundiais do século XX, que alteraram a história do mundo.

Quem está atento às transformações da realidade internacional sabe bem que assim é. A pessoa que tem uma consciência mais dramática desta circunstância especial é seguramente António Guterres, novo secretário-geral da ONU, que na sua mensagem de 1 de Janeiro deste ano, Dia Mundial da Paz, não hesitou em converter o combate colectivo pela paz numa prioridade absoluta do nosso tempo. Por isso afirmou sem eufemismos ou efeitos retóricos que "nestas guerras não há vencedores, todos perdem". E acrescentou: "Gastam-se bilhões de dólares na destruição de sociedades e economias, alimentando ciclos de desconfiança e medo que podem perpetuar-se por gerações. Várias regiões do planeta estão inteiramente desestabilizadas e um novo fenómeno de terrorismo global ameaça a todos."

Deste modo, António Guterres, ainda com a memória dos dez anos de exemplar serviço como alto-comissário da ONU para os Refugiados, caracterizou a situação e explicou o contexto que o levou a afirmar: "Seja através da solidariedade e da compaixão nas nossas vidas quotidianas, seja através do diálogo e respeito, independentemente das divergências políticas. Seja por via de um cessar-fogo num campo de batalha ou mediante entendimentos conseguidos à mesa de negociações para obter soluções políticas." Estas podem ser as vias para se alcançar a paz, mas esse superior desígnio só será cumprido com a vontade, a energia e a criatividade humanista de muitos. Também por isso Guterres acrescenta: "A procura do bem supremo da paz deve ser o nosso objectivo e o nosso princípio orientador."

Desta forma, o assunto converte-se numa mobilizadora e transformadora responsabilidade colectiva. Os criadores e difusores de cultura, sempre disponíveis para afirmar publicamente a sua solidariedade com aqueles que estão desamparados e em sofrimento, costumam ser dos primeiros a dar voz às causas que consideram justas e inadiáveis. A cultura não adia nem resolve guerras, mas tem o dever de levar os seres humanos a procurar a via do discernimento, do diálogo e da razão. Se assim não for, os conflitos perpetuam-se e as perdas humanas são sempre irreparáveis.

Sabemos que a cultura não teve força bastante para evitar as duas guerras mundiais, mas contribuiu para que bolsas de convergência e diálogo por vezes se abrissem e o imenso esforço de reconstrução acabasse por cumprir-se. Também contribuiu para que houvesse sucessivas décadas de paz, mesmo no tenso clima da Guerra Fria.

Agora é tempo de se dar força e razão a António Guterres, que terá de conversar com Donald Trump, ajudar a resolver a guerra na Síria, a manter uma Europa dialogante e sustentável no pós-brexit e a evitar que o populismo e as ideias neofascistas conquistem o poder em vários Estados. Ele tem experiência, inteligência e serenidade bastantes para seguir, nestas horas tão exigentes e duras, o caminho justo e certo, que é o da paz.

Saibam agora os autores, os artistas, os promotores e difusores de cultura, em Portugal e no mundo, criar as bases sustentáveis e sólidas de uma aliança que dê voz e credibilidade a muitos milhões de pessoas em sofrimento, em fuga e em perda constante neste planeta que se tornou pouco solidário, ainda mais egoísta e sempre obcecado com as ideias de enriquecimento e de poder.

É tempo de se criar uma aliança cultural movida pela ideia de paz que seja capaz de nos unir e mobilizar para podermos enfrentar os grandes desafios do nosso tempo.

Escritor, jornalista e presidente da spa

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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