A Conspiração Telstar

Numa das últimas entradas no diário que manteve no hospital enquanto morria de tuberculose, Orwell escreveu que, quando chega aos cinquenta anos, cada homem tem o rosto que merece. Sucede que Orwell tinha quarenta e seis anos, e nunca chegou aos quarenta e sete; não sabia, portanto, do que estava a falar. Qualquer espectador dedicado e fiel do Campeonato do Mundo, pelo contrário, pode gritar aos quatro ventos uma verdade insofismável, autobiograficamente adquirida: quando se chega ao fim da fase de grupos, cada espectador dedicado e fiel do Campeonato do Mundo tem o rosto que merece.

E que surpresa é redescobrir esse rosto quando se arrisca a primeira peregrinação até à presença de um espelho em duas semanas. Os pelos faciais que agora cobrem indiscriminadamente lugares outrora descampados; os canteiros em semi-círculo debaixo de cada olho, onde germinam gloriosas olheiras; o sobrolho apetrechado e enriquecido com conhecimentos inúteis: é este o legado fisionómico de sessenta horas consecutivas de futebol na televisão, mais uns turnos extraordinários de resumos. E o mérito é todo nosso.

Cada Mundial morre várias mortes antes da última, e a primeira ocorre neste fatídico purgatório que é o dia de pausa antes dos jogos a eliminar. Subitamente, e pela primeira vez desde os longínquos discursos inaugurais de Vladimir Putin e Gianni Infantino, o calendário parece encolher e dilatar em simultâneo. É uma pequena janela temporal, suficiente para redescobrir os pequenos prazeres da vida extra-futebol - tomar o pequeno-almoço, por exemplo, ou até fazer a barba - mas também para calcular os juros físicos e psíquicos incorridos durante o certame.

O principal dano é o impacto causado no nosso sistema operativo por toda a informação adicional que somos forçados a reter e a processar, enquanto vamos comparando o inventário em curso de imagens e momentos com os inventários de Mundiais anteriores. Escolhas vão sendo feitas, a um nível subliminar, mas ainda é tudo demasiado caótico e provisório, pelo que o cérebro decide armazenar tudo até haver mais certezas. Nesta altura, por exemplo, pode ser um desafio recordar o nome completo de pessoas que costumavam fazer parte da minha vida antes de 14 de Junho, mas sei que o alucinado lateral-esquerdo australiano (que no jogo com a França tentou por duas vezes fazer um túnel a N'Golo Kanté) se chama Aziz Behich, que nasceu a 16 de Dezembro de 1990, e que na última época integrou o plantel do Bursaspor. Este facto faz agora parte do meu repertório mental, onde substituiu implacavelmente um qualquer pedaço de informação supérflua, provavelmente o meu número de Segurança Social.

A imagem mais marcante do último dia da fase de grupos terá sido o meme espontâneo fabricado por Batshuayi, que celebrou o único golo do Bélgica-Inglaterra pontapeando a bola contra o poste e levando com ela em cheio na cara. Foi o corolário lógico e mais do que apropriado a duas semanas em que o instrumento do jogo saiu quase sempre triunfante dos seus combates com a intenção dos executantes. Nunca houve um Mundial com tantos auto-golos, alguns dos quais inesquecíveis, como o penálti de Bryan Ruiz que levou a bola a ressaltar na trave e no cocuruto do guarda-redes suíço antes de passar a linha de baliza. E a quantidade de remates em zona frontal que passam metros por cima da barra, bem como de cruzamentos e pontapés de canto demasiado longos ou demasiado curtos tornam pelo menos curiosa a escassa atenção mediática dada à Telstar-18 da Adidas, bola oficial da competição. Uma respeitável tradição de Mundiais anteriores eram as entrevistas de guarda-redes a criticar a "imprevisibilidade" da nova bola (em 2010 era impossível dar dois passos na internet sem tropeçar num manifesto anti-Jabulani). Em 2018 impera um pacto de silêncio que parece saído de um thriller de Robert Ludlum: The Telstar Conspiracy.

Mas esta predominância óptica dos caprichos da bola sobre os utilizadores talvez se deva a uma das lacunas que um Mundial rico em imagens e momentos ainda não preencheu: a emergência de uma selecção claramente dominante. Em períodos de ócio narrativo, e na ausência de um padrão, é mais fácil ao olho focar os acidentes e os efeitos secundários. É nos oitavos-de-final que tanto as histórias como as imagens começam a ganhar definição. A única certeza por enquanto é que uma das dezasseis equipas ainda em prova não vai perder mais nenhum jogo. Faltam mais duas semanas para que todos tenhamos as respostas que merecemos.

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