75.º aniversário da Vitória na Segunda Guerra Mundial: lições para o futuro

No dia 9 de maio comemora-se na Rússia a festa mais importante para o nosso país - o Dia da Vitória na Grande Guerra Patriótica. Nesta data sagrada nós homenageamos a memória dos combatentes e "trabalhadores de retaguarda" que com o seu enorme esforço faziam aproximar a derrota do fascismo.

​Vivendo hoje nas condições inéditas da pandemia do novo coronavírus, não podemos manifestar a nossa admiração por estes heróis de uma maneira tradicional- na rua, com celebrações em todo o lado, flores, desfiles, sorrisos e lágrimas. Mas mesmo nesta nova realidade é o nosso dever fazer tudo para que a memória sobre a proeza do povo soviético, dos Aliados, cujo apoio à URSS não esquecemos, de todos que combateram contra a "peste castanha", não seja esquecida.

​A União Soviética pagou o preço mais alto pela libertação da Europa - cerca de 26,6 milhões de vidas perdidas neste pesadelo em que se tornou a Segunda Guerra Mundial para todo o mundo. A catástrofe de escala nunca antes conhecida nos deve dar a entender que não podemos esquecer as lições da história, mesmo passados 75 anos. Ensinar os nossos filhos sobre as razões e premissas da guerra, sobre o papel do cada um dos estados na luta duradoura e exaustiva contra a agressão fascista, os valores universais forjados neste crisol de destinos é essencial. Neste sentido, as tentativas de reescrever a história, falsear a verdade e rever os resultados da guerra, que nestes dias ganham cada vez mais impulso, são inadmissíveis.

​A cooperação dos estados com ideologias diferentes em face do inimigo comum e em prol da sobrevivência de toda a humanidade é um bom exemplo de que apenas estando juntos é possível fazer frente às ameaças globais. Mesmo nas condições do diálogo pouco fácil entre os Aliados veio a ser possível concordar passos necessários, inclusive a abertura da Frente Ocidental, que contribuíram para a Vitória comum.

​Neste contexto, vale a pena relembrar o encontro perto da cidade Torgau, na Alemanha, entre as tropas soviéticas e americanas a 25 de abril de 1945 que se tornou conhecido como o Dia do Elba e marcou a viragem crucial para a derrota do regime nazi. Neste ano a data foi devidamente comemorada pelos presidentes da Rússia e dos Estados Unidos, Vladimir Putin e Donald Trump, que emitiram uma declaração conjunta. O documento consagra, nomeadamente, que "o espírito de Elba é um exemplo, como os nossos países conseguem por de lado controvérsias, construir confiança e cooperar em prol do objetivo comum".

​A história contemporânea dá mais exemplos deste entendimento mútuo entre as grandes potências, desde a Crise da Caraíbas até ao acordo acerca do programa nuclear iraniano - o Plano de Ação Conjunto Global, resolução da situação na Península da Coreia ou combate contra o terrorismo internacional, inclusive na Síria. Todos estes dossiers confirmam uma regra importante, mas às vezes negligenciada: a cooperação apenas corre bem enquanto não há politização e imposição de opiniões. Assim, soa hoje ainda mais oportunamente o famoso ditado do estadista mexicano Benito Juárez que "entre os indivíduos, assim como entre nações, o respeito pelo direito alheio é a paz".

​O que o mundo contemporâneo precisa, mais do que nunca, é o multilateralismo. A cooperação pragmática entre os estados baseada nos princípios universais consagrados há 75 anos na Carta das Nações Unidas, bem como no respeito das normas geralmente reconhecidas do Direito Internacional. A criação de qualquer tipo de grupos de interesse ou clubes dos privilegiados não serve para nada do que minar os esforços comuns para a construção da estabilidade e segurança dos povos.

​Perante a ameaça global que é a pandemia da COVID-19 ficou evidente que estamos todos num barco só, que é a nossa Terra, e ninguém pode ser considerado protegido. É uma luta que nos aguarde na frente. E é a luta não só por cada vida humana, mas também pela dignidade de cada um dos estados, pela sua capacidade de encontrar pontos comuns, mesmo havendo discordâncias. O que não podemos permitir neste momento é exatamente o isolacionismo e a abordagem "cada um por si". No mundo globalizado e profundamente interligado é essencial termos a vontade de construir o nosso futuro no diálogo.

​Neste contexto é de destacar a iniciativa do Presidente da Federação da Rússia, anunciada no âmbito do Fórum Mundial do Holocausto em Jerusalém no passado dia 23 de janeiro, de organizar preferivelmente ainda até ao fim deste ano a cimeira dos membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Foram estes países os principais responsáveis pelo destino da humanidade nos anos da guerra. Agora o seu dever é, afastando-se da polémica político-ideológica, sentar-se a mesa de negociações para fazer uma reflexão profunda sobre a situação atual, seriamente agravada pelo surto do novo coronavírus. A ideia já foi recebida favoravelmente em Londres, Paris, Pequim e Washington.

​A promoção do multilateralismo, o fortalecimento do papel das Nações Unidas, a elaboração das decisões de impacto universal no diálogo é uma das principais prioridades da política externa de Moscovo que é partilhada em muitas capitais do mundo, inclusive Lisboa. É com esta visão que nós agíamos e vamos agir no palco internacional. É esta a nossa atitude nas conversas bilaterais e multilaterais com os nossos parceiros. E é a única maneira de enfrentarmos juntos os desafios que são nos postos pela atualidade.

​Queria aproveitar esta possibilidade para nestes dias da comemoração "com lágrimas nos olhos" dar os meus parabéns a todos os portugueses, compatriotas russos e cidadãos de outros países que residem em Portugal por ocasião do 75.º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial na Europa. Desejo-vos muita saúde, alegria, felicidade e bom sucesso. Feliz Dia da Vitória.

Embaixador da Rússia em Portugal

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