2016? Já passou

O que marcará o ano? O aparente triunfo do poder do dinheiro? Os ataques terroristas de "bárbaros"? Um ovo de Colombo que a pomba do Espírito Santo deixou no Vaticano, chamado "Francisco"?

A resposta a esta pergunta infeliz - o que poderá marcar 2016? -, ou a esta pergunta que não é pergunta, implica a aceitação de várias regras do jogo jornalístico que não acho correctas e sobretudo implica colaborar num jogo fraco como peça de jornalismo, a não ser que se pretenda apanhar os interrogados em flagrante vaidade ou estupidez, o que não será difícil, mas a operação é resgatada porque constituirá em si própria um documento sobre os laureados e laureáveis. Volta e meia lá vêm os notáveis botar discurso, como se o deles marcasse fosse o que fosse, ou justificasse um espaço que rendia mais se fosse vendido à publicidade. Espero que o meu caso, apesar de tudo, esteja mais próximo da primeira hipótese. Mais vale vaidade que estupidez. E é para não perder a esperança, para não ficar profundamente marcado, como o tempo que estou a viver, pelo desencanto ou o falhanço de tantas ilusões, para não me tornar em mais um cínico, que deixei de comprar qualquer jornal. E nunca ligo a televisão.

Pergunto a mim próprio o que hei-de responder: a verdade é que qualquer coisa serve, desde que contribua para ganhar ou não perder prestígio, coisas que já não têm interesse nenhum para qualquer dos prémios Pessoa e Camões. É um texto que serve para sustentar a fotografia, encher o resto da página, e, claro, como é tão invejado o Prémio Pessoa (pudera, é dinheiro!...), talvez garanta mais compradores do jornal.

Senão vejamos: o que é que marcará o próximo ano? Não me pedem com certeza que adivinhe. O aparente triunfo do poder do dinheiro? Os ataques terroristas de "bárbaros" a uma discoteca e a um jornal humorístico no país da Revolução que para sempre marcou o mundo? Um ovo de Colombo que a pomba do Espírito Santo deixou no Vaticano, chamado "Francisco". Sem apelido, como os furacões? Coisas que me marcaram, por mim falo, já nos últimos tempos e vão marcar o ano que vem aí? O triunfo do bluff em todos os sectores e, depois da invasão pela publicidade automóvel de tudo o que é património mundial da humanidade, o nascimento das águas de um arco do triunfo para a recente entrada pela porta grande nos palácios, de uma activa empresária portuguesa, a nossa Joaninha, já tão querida como nova Vénus portuguesa? A falta de mais uma obra-prima cada ano no cinema português? Falando no meu "sector", a tomada do poder no Teatro pela geração dos 40? O Facebook e o fenómeno editorial Frederico Lourenço? Eu estou morto por ver já em 2016 a Educação de fio dental a desfilar com a Burocracia com arrecadas e toda vestida de Fadista a abrir a Gay Parade... E os saldos de bilhetes de avião, as promoções, etc., transformarem o mundo inteiro em curtidos hostels e B e Bês e finalmente o Mundo passar a ser igual àquele programa que havia quando eu via televisão e era apresentado sempre pelo Eládio Clímaco e que se chamava Jogos sem Fronteiras?

Neste acesso de frustrada demagogia, estou a fazer batota e a entrar no jogo decadente do nosso pequeno mundo ainda que preservando uma obsoleta decência que persiste em tentar não deixar vender-me como vários colegas meus, de cabeça mais lúcida: "eu tenho a culpa se o mundo está podre?" "Hei-de ser infeliz e miserável e deixar que outros piores do que eu me roubem a possibilidade de viver?"

Mas posso entender a pergunta, e responder, sem fugir com o rabo à seringa, nem me tornar em vidente de bola de cristal, de maneira mais possível se pensar (mas não acredito que a ideia fosse essa) que o que querem é que eu diga o que é que já aconteceu e julgo suficientemente importante para condicionar o que vier a acontecer em 2016. 2016? Já? Nunca fui bom a matemática e sou cada vez mais incapaz de memorizar um algarismo... Nem interessa o que vier a acontecer daqui para a frente.

Parto de uma premissa que divide as pessoas em dois, como desde sempre acontece, aliás. Mas mais do que a divisão de sempre entre bons e maus, esta divisão passa pelos contentes e os infelizes. Ou os que pensam e os que não pensam? Ou os que sonham e os que não sonham? Os que desejam e os enfastiados? Creio que de uma maneira ou de outra, muita gente já percebeu que é infeliz e que se esqueceu de construir a sua felicidade. Pensou que era o que afinal não é quase nada. Uma casa boa (mas o que é uma casa boa?), mulher e filhos, comer bem, dormir melhor e "saudinha, o que é preciso é saudinha" (Foi o que na sua bela teatralidade, Mariana Rey Monteiro encontrou para dizer ao grupo de universitários em que eu me inseria e que a foi cumprimentar no fim de uma récita de Equilíbrio Instável, de Albee, se não me engano. Mas acrescentou: "Gosto muito de fazer mulheres de pé descalço." Longe estava eu de pensar quanto não tardou muito e a viria a compreender.

Perante a exposição sem vergonha da corrupção das consciências na classe política ("os filhos das nossas criadas" como dizia com alguma graça e profundo reaccionarismo" um professor universitário que estimo), a crise económica (existe?), os velhos ricos serem ultrapassados pelos novos-ricos, a associação de felicidade ao dinheiro passou a ser menos evidente, o ideal de felicidade baseado no dinheiro caducou, todos os egos se aborreceram. Sexo sim, claro, quanto mais melhor. Mas sexo também é procriação, família. E há o dinheiro e a droga. Ainda bem. Venha o caos. Posso incorrer em erro, mas quero ajudar a que muitas Ritas se casem e que haja mais casamentos. É a mais pequena mas natural forma de sociedade. Seja como for, o descrédito na pessoa dos políticos não se politiza, a própria classe política não acredita em si própria. Quantos ministros me disseram: eu queria mas não posso. Nem é preciso fazer a óbvia pergunta seguinte: então porque aceitas aí estar? A resposta, nos melhores casos, seria: eu também tenho de ganhar a vida. Não é o que nos representa, a assembleia e os ministros, que organizam em nosso nome a vida em comum. É fácil ver. Quem manda é o Big Brother, já toda a gente sabe.

É feio dizer, sobretudo quando surge inesperadamente uma conjunção daquilo a que se chamava esquerda a propor-se governar, mas eu perdi o medo, e digo porque quero escandalizar: eu não voto. Não quero colaborar num processo viciado. Não quero o que eles dizem que querem quando falam de eficácia, competência, progresso. Eu não quero nada disso. Seria criar novos e bons técnicos. Fazer melhor uma sociedade que está divorciada nos seus fundamentos dos valores que considero intrínsecos aos valores humanos.

E é aqui que creio oportuno falar de religião. Com base em três valores, três virtudes que associamos ao catolicismo e cujo apreço, ou não, julgo que é o que divide os dois grupos. O trio das teologias - Fé, Esperança e Caridade - substitui ou deve substituir o da palavra de ordem da revolução francesa, de que, aliás, difere pouco e foi tudo menos cumprido: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Todo o sistema as torna impossíveis. A interiorização do sentimento de posse, e da consequente inveja, e das relações de poder nas relações entre os seres humanos é tal que não sei se sem outra motivação que aquela que existe na sociedade civil um homem será capaz de oferecer aos outros, ao futuro, o seu corpo, como fazem os terroristas a sério. E o processo tem de acreditar no mistério da vida eterna, porque tem de transcender a morte da personalidade que ocorre com a doença e a morte de cada um dos corpos humanos, de cada eu. Assim me dizia Manoel de Oliveira pouco tempo antes de sair por essa famosa porta e entrar no Espírito. Mas, ao contrário dele, não acredito que o homem seja mau, não é só Caim o filho de Adão, houve Caim e Abel.

A Fé é uma decisão. Fiz um espectáculo sobre isso que pouca gente entendeu: Fingido e Verdadeiro. Eu posso acreditar no que quiser e o trabalho dos actores disso dá exemplo. A Fé é mais do que convencermo-nos, é querermos crer. A Bíblia é o conjunto de textos capazes de formar valores em que uma religião feita por homens, autores destes textos, concordam em acreditar e defender. Ninguém me manda. É o terreno livre por excelência.

Há sempre uma zona da existência que teremos de aceitar que não dominamos, é a prova de humildade de que se tens fé, tens de ter. Deus é quem sabe o que tu não entendes e só amas. Mas amas, amas os outros mais do que a ti próprio. É a Caridade.

Estou convencido de que mais do que um renascer de um discurso político mais sincero mas inoperante ao aceitar tanta regra morta que o condiciona, sobretudo o poder do Dinheiro, é uma resposta cristã que devia ter confiança em si própria, dando à Igreja a tarefa interna de corrigir tanto tempo perdido e o atraso que foi ganhando em relação à evolução do resto de humanidade, começar a conseguir ela própria libertar-se e como entidade que tem por base, como diz João, o santo do Céu da minha maior admiração, um só valor, o Amor, Amor pelos outros que é amor de Deus.

Pelo menos desejo, espero, que esse fantástico Papa que não quis viver no Palácio continue a assumir o papel de motor de arranque, ou de provocador de uma outra maneira de fazer política no mundo com o coração e, claro, do lado dos pobrezinhos.

Aconselho a toda a gente que leia a tão boa tradução do poeta Armando Silva Carvalho, do extenso poema de Charles Péguy, poeta morto, francês, católico, na tradução há pouco editada nas renovadas edições Paulinas, que em boa hora o padre Tolentino me pôs ainda a ler em voz alta e que se chama: Os Portais do Mistério da Segunda Virtude. É sobre a virtude da Esperança. Não é a Bíblia. É apenas um poema escrito por outro homem como nós. E há tanta coisa na Arte que move tanto e tanto nos integra na profunda responsabilização individual que tem de acontecer. Depois de 2016, eu sei. A sabedoria popular, e voz do povo voz de Deus, diz que o Génio é uma longa paciência e que devagar se vai ao longe. Lembro que não foi Deus que nos deu uma vida tão curta. Foi Adão. "E a culpada foi a Eva..." A Misericórdia de que fala o Papa Francisco passa também por uma verdadeira revolução na relação do Homem com o Tempo. 2016? Já passou. "Nada Nosso que estás no Nada seja Nada o Teu Nome." Não é, Tolentino?

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