100 anos de relações diplomáticas entre a Finlândia e Portugal

Hoje assinala-se o centenário das relações diplomáticas entre a Finlândia e Portugal. Finlândia que declarou a sua independência da Rússia em 6 de dezembro de 1917, foi reconhecida por Portugal em dezembro de 1919 e as relações diplomáticas foram oficializadas pelo Conselho de Ministros de Portugal em 10 de janeiro de 1920.

Inicialmente o Presidente do Governo finlandês P.E. Svinhuvud enviou no dia 11 de janeiro de 1918 uma carta ao Cônsul de Portugal em Helsínquia, Gunnar Dahlberg comunicando que a Finlândia se tinha declarado como uma "República independente e soberana", simultaneamente pedindo ao Senhor Cônsul para transmitir a informação ao Governo Português, "com o intuito de que o Governo Português reconhecesse a Finlândia". Com a Finlândia mergulhada na guerra civil dos finais de janeiro até maio de 1918 e os tempos confusos pós Primeira Guerra Mundial na Europa, contribuíram para que fosse só na Conferência da Paz de Paris no Verão de 1919 que o Ministro dos Negócios Estrangeiros finlandês Rudolf Holsti retomasse o assunto, que levou ao estabelecimento das relações diplomáticas entre a Finlândia e Portugal.

Marcou o início do conhecimento mútuo e a criação de laços. Hoje somos dois países membros da família europeia. Somos pró-europeístas, membros da moeda única e do espaço Schengen desde o início, queremos de forma ativa contribuir para o desenvolvimento da UE - Juntos somos mais fortes. A livre circulação e programas como o Erasmus tem facilitado o movimento de cidadãos jovens e menos jovens. O mercado único tem criado oportunidades às empresas. Tudo isto tem permitido aumentar consideravelmente o conhecimento mútuo e as relações estreitas que a Finlândia e Portugal têm hoje. Os ministros encontram-se com regularidade ao longo do ano no contexto da União Europeia. Os Chefes de Estado reúnem anualmente no Grupo Arraiolos, criado pelo Presidente da República Jorge Sampaio em 2003. A nível parlamentar no parlamento finlandês funciona já pela segunda legislatura o grupo de amizade Finlândia-Portugal, esperemos que seja constituído um grupo semelhante dentro em breve também no Parlamento português.

A ilha da Madeira é um dos destinos mais antigos das operadoras turísticas da Finlândia em termos de viagens organizadas. A maior comunidade finlandesa em Portugal concentra-se na região do Algarve, e dos primeiros turistas finlandeses mais conhecidos na região talvez tenha sido o antigo Presidente da República, Marechal Mannerheim em 1945. A comunidade finlandesa tem registada desde há trinta anos a Associação Finlandesa no Algarve, que conta com quase mil membros associados.

As relações económicas têm vindo a crescer, contando hoje com várias empresas finlandesas com unidades de produção e escritórios de representação em Portugal. A primeira empresa finlandesa que se saiba, a operar no mercado Português, foi a Focal-Fomento Comercial de Papelaria Lda fundada em 1952. Nos anos 50 uma comunidade finlandesa estabeleceu-se em Aveiro, trabalhadores e famílias que vieram construir uma fábrica de celulose e ajudar a desenvolver a linha de produção da Fábrica de Porcelana da Vista Alegre. Nos anos 60 as primeiras fábricas finlandesas de têxteis situaram-se em Matosinhos e na Ericeira. Com a adesão de Portugal à UE o número de empresas finlandesas passou para 23 no início dos anos 90. A compra da EPSI - Empresa de Polímeros de Sines SA pela empresa finlandesa Neste em 1989 foi o maior investimento estrangeiro em Portugal até aí registado. A Câmara de Comércio Luso-Finlandesa foi também criada há trinta anos, no tempo do grande crescimento em número das empresas finlandesas no mercado português.

Atualmente a maior entidade empregadora finlandesa em Portugal é a Nokia com acima de 2000 engenheiros altamente qualificados no Global Solutions Centre situado em Alfragide e com a abertura anunciada de um novo Centro de Excelência, que vai desempenhar um papel à escala global e no futuro empregar mais pessoas. Outro empreendimento com longa história em Portugal e dos maiores investimentos finlandeses, com centenas de milhões de euros, é o empreendimento turístico de gama alta, Ombria Resort situado em Loulé. Estima-se que vai criar direta e indiretamente centenas de postos de trabalho na região.

Hoje olhamos para o futuro, e no topo da agenda estão as inovações e o sector educativo, do qual a colaboração entre as autoridades portuguesas, ensino superior português e a empresa finlandesa Demola é um bom exemplo. Olhamos para um futuro sustentável e uma economia circular, com enfoque na ação climática e nas fontes de energia renovável. A produção de energia das ondas em Peniche há uma década pela empresa finlandesa AW Energy é a primeira do seu género no mundo. A colaboração no setor florestal vai ter efeitos significativos nas questões climáticas como também no desenvolvimento rural do interior.

O primeiro Representante da Finlândia Olli Talas em 1920 descreveu as conversas com o Ministro dos Negócios Estrangeiros Rodolfo Xavier da Silva da seguinte forma: "Nas conversas (com o Ministro dos Negócios Estrangeiros) tive a oportunidade para apresentar-lhe a posição da Finlândia, que para o Ministro foi de tal modo desconhecida que, não sabia que tinha sido definitivamente aprovada uma Constituição e eleito um Presidente da República. Também parecia surpreender o Ministro a minha afirmação sobre a existência da paz na Finlândia. O Ministro manifestou o desejo de receber uma tradução em língua francesa ou inglesa da Lei sobre a Forma de Governo da Finlândia, o que lhe prometi providenciar. No mesmo dia enviei ao Ministro, um livro intitulado La Finlande, publicado pelo Centro das Câmaras de Comércio. Mais tarde, quando nos encontrámos, o Senhor Ministro afirmou ter lido o livro com grande interesse e daí ter adquirido muitas informações sobre a Finlândia".

Felizmente os tempos são outros. Temos feito parte da mesma família da cooperação europeia há um quarto de século, já nos conhecemos bem.

Embaixadora da Finlândia em Portugal

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