Política e Futebol no Médio Oriente

Regresso aos Acordos de Abraão para assinalar uma 2ª consequência prática dos mesmos, cujos efeitos no curto prazo poderão de facto, alterar perspectivas e "desconstruir" edifícios que se vão construindo interiormente no indivíduo desde a escola primária.

A 1ª consequência prática, assinalei-a aqui com o pacote de reformas do Código Penal nos Emirados Árabes Unidos, que despenaliza uniões de facto, consumo do álcool, condena crimes de honra e permite ao estrangeiro residente a opção pela lei que quer ver regulada a sua herança e legado.

A 2ª consequência, é também inédita e toca os corações das massas, já que Hamad Bin Khalifa Al Nahyan, membro da família real do Abu Dhabi, comprou 50% do clube de futebol Beitar Jerusalem, cujos adeptos são considerados os mais ortodoxos no que toca ao ecumenismo do seu onze, dentro de campo. Não toleraram a contratação de 2 jogadores chechenos, por se tratarem de muçulmanos, insultando-os nos treinos, jogos e abandonando as bancadas quando um destes marcou um golo.

No entanto, esta parece ser a jogada certa num Mundo de mercado livre e de paixões, como só o desporto provoca. E vários têm sido os exemplos do desporto ao serviço da política. Recordo um jogo Estados Unidos - Irão durante o Mundial de 98, que começou com os capitães de equipa a trocarem ramos de flores antes do apito inicial. Marrocos, há menos de 10 anos, projectou a abertura da fronteira terrestre com a Argélia, na 1ª etapa da Volta a Marrocos em bicicleta, com início em território argelino e os ciclistas a serem os primeiros a passarem a linha de fronteira sem precisarem de vistos ou carimbos, símbolo da livre circulação entre povos irmãos e que se estimam para lá da política.

Esta iniciativa empresarial vai certamente permitir uma aproximação entre israelitas e árabes, dentro da desconfiança habitual, mas sobretudo mostrar às populações e, ao mais alto nível, que é possível as coisas correrem bem. Importante para a base da pirâmide, é que os bons exemplos venham do topo e esta será certamente, uma das muitas iniciativas de cooperação que vão contribuir para pôr em causa muitos dos estereótipos incorporados na Yeshiva e na Madrassa sobre o Outro.

A partir do Golfo, esta investida será certamente vista como um primeiro passo para a materialização do sonho do "Jerusalém a nós retornará", permitindo também uma perspectiva alternativa à guerra. Retornará, não pelo conflito, mas por formas alternativas, cujos endinheirados poderão fomentar, sem perderem o conforto, nem cicatrizarem os seus.

Uma vez mais também, insisto na ideia que é necessário abstrairmo-nos, todos, de que "Abraão" se trata de uma iniciativa de Trump e de Netanyahu. São políticos pouco recomendáveis, pelo que são e pelo que representam, mas o plano está bem gizado e prossegue o propósito de quebrar tabus, o que está a acontecer!

Raúl M. Braga Pires

Politólogo/Arabista

www.maghreb-machrek.pt

O Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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