A investida americana no Magrebe

Parece haver uma investida de última hora americana nos 3 países que constituem o Magrebe, Marrocos, Argélia e Tunísia. Para ser rigoroso, ao incluir na região a Mauritânia e a Líbia, já estaremos a falar do Grande Magrebe.

Isto porque entre Setembro e o Outubro já consumido, vários altos representantes da Administração Trump, vieram até ao Mediterrâneo Ocidental, reforçar contactos e contratos, assegurando aos locais que a prioridade securitária e recuperação económica são mutuas lá, como cá. Mark Esper, Secretário da Defesa Americano, ultimou na semana passada todo um conjunto de investidas de emissários militares e financeiros anteriores à pena política que soberanamente veio assinar o acordado previamente.

Em Tunes, o Chefe do AFRICOM, General Stephen Townsend, garantiu que os Estados Unidos da América (EUA), continuam a ver na Tunísia um importante aliado que continuará a formar e a fornecer tecnologias de vigilância electrónica às unidades militares estacionadas na fronteira com a Líbia. Também a partir de Tunes, efectuou uma vídeo-chamada com o novo Minstro da Defesa Líbio, Salah Eddinaal-Namrush, ao qual afirmou que continuam a ver no Governo líbio reconhecido pelas Nações Unidas, um importante aliado, reiterando o interesse americano em ver uma Líbia expurgada de mercenários e estrangeiros em geral.

Em Argel, as coisas "piaram mais fininho" para os americanos, dada a proximidade, dependência e fidelidade argelina a Moscovo. Seja como for, o General Townsend reiterou a importância da Argélia no xadrez regional, sobretudo após o golpe no Mali e a contínua e incerta guerra na Líbia que, quer queiramos quer não, envolve vários membros da NATO quer de um lado, quer de outro. A Argélia e a nova Presidência Tebboune, poderão constituir um aliado estratégico e decisivo, já que possui várias "chaves" regionais pós-Kadhafi. A impermeabilização da longa fronteira argelo-líbia e argelo-maliana estiveram no topo da agenda.

Já com Marrocos as coisas, à partida, parecerão sempre mais simples, com um aliado que se arroga de ser o primeiro Estado, ainda em período pré-colonial, a reconhecer a independência americanaem 1777, um ano antes dos holandeses e 6 anos antes da Grã-Bretanha. Estes "jokers" jogam-se no momento certo e, Marrocos, jamais antagonizará um membro permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, sendo que até conta com outro, a França.

No sentido da recuperação económica deste aliado magrebino, que vê na União Europeia a tormenta que se aproxima, os americanos acordaram investir nos sectores nos quais Marrocos não poderá ver projectos de dimensão continentalpendurados por falta de financiamento. Os sectores da Energia (com o "sol marroquino" a inundar a Europa, o Magrebe e a África Ocidental de energia verde), da Saúde Pública, das Infra-estruturas da Comunicação (física e virtual) e, de um novo fétiche de Sua Majestade, a Indústria Aeroespacial, a qual ficará em tudo dependente da americana, complementando-a no campo das informações e processo de tomada de decisão na Política Externa. Em resumo, com os nossos "primos marroquinos", ficou estabelecido um plano de cooperação a 10 anos, o qual contempla a já habitual e imperativa troca de informações, comando, controlo, vigilância, reconhecimento e operações humanitárias. Esta última, um ardil interessante e sempre utilizado para intervenções "quase-fora-da-lei".

Fica assim também e em perspectiva, o abrir de um período de mais 10 anos de cooperação próxima, independente do resultado eleitoral americano do próximo mês, durante o qual a questão sahraoui terá espaço para "esticar e encolher", consoante os humores da nova Presidência argelina, que até poderá render-se à evidência de que já conquistou um lugar na História enquanto motor libertário em África, mas cujo "Fim da História" também lhe sentenciou, a eles e aos outros (palestinianos e curdos por exemplo) o Fim do Sonho, uma vez mais em prol de torradeiras, "gadgets" e satélites. Em resumo, o conforto dos vencedores.

Politólogo/Arabista

www.maghreb-machrek.pt

O Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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