Tancos, um caso psicológico com consequências graves

Tancos podia ser a história de uma comédia, se não fosse o que é: um retrato de irresponsabilidades e falta de profissionalismo ao mais alto nível. Triste. É daqueles acontecimentos que nos podem fazer mal como país, que nos apoucam e menorizam. Enfim, que nos atingem a alma. Talvez seja uma história dos nossos tempos.

Tancos tem dois capítulos, nenhum melhor do que o outro. Aliás, até se poderia dizer que a história só piora. O primeiro capítulo é sobre como um traficante de droga, que fazia do negócio de armas um part-time, jogava póquer e tinha um bar de vão de escada numa terra atrás do sol-posto, Ansião, como é que alguém com um tão baixo perfil criminal consegue assaltar um paiol, em duas calmas horas, numa madrugada, retirar as armas e desaparecer com elas sem que ninguém desse por isso até bem tarde na manhã seguinte.

O segundo capítulo é o da Húbris, o nome que a Polícia Judiciária deu à operação que pôs a nu a trama. E é um nome que soa a tragédia grega, que é o que tudo isto parece. Húbris é o que se diz da autoconfiança quando ela se torna negativa. Fatal. Mas não é um nome apropriado, porque, na verdade, a segunda parte desta história relata um caso psicológico clássico de humilhação e vingança. De orgulho ferido. De não conseguir lidar com a rejeição. E isso não tem nada que ver com autoconfiança, bem pelo contrário.

É que o mais grave se passou aqui, em termos históricos, não é a trapalhada da "descoberta encenada" das armas, mas sim o assalto, tão simples, a um paiol militar sem segurança. E disso toda a gente se vai esquecer, na loucura do resto da história.

Porque foram questões psicológicas que levaram os militares da Polícia Judiciária Militar a participar numa "farsa" da descoberta do material, em conluio com assaltantes, para ultrapassar a PJ civil a quem tinha sido entregue a investigação. Esqueceram todas as regras e legalidade, aceitaram fazer um acordo com um ladrão - de perfil baixo, como já disse - em vez de colaborar com as autoridades competentes. Isto num processo de enorme gravidade, em que estava envolvida uma quebra de segurança - o roubo de armas à guarda do Estado. Nunca percebendo o que tudo isto podia fazer a eles, ao corpo militar deles, à integridade e à moralidade de quem depende da confiança de um povo. E em quem um povo tem absolutamente de confiar.

A investigação que agora está expressa na acusação mostra em relatos de telefonemas, e-mails, mensagens e depoimentos o que esteve em causa. É difícil de acreditar, claro, que militares de carreira, com tanto a perder, tenham entrado numa operação destas. O seu único objetivo era recuperar, além do material, a sua dignidade de corpo de investigação militar. Estranho é que não tenham percebido que a estavam, precisamente, a desbaratar.

Um misto de ingenuidade e pensamento mágico? Podiam ter pensado que, com tanta gente envolvida, e num país como Portugal, em que ninguém se cala, seriam apanhados com alguma facilidade. Podiam, mas, do que se deduz do processo e das acusações que já foram feitas, tiveram um fator que lhes deu ainda mais confiança: apoio superior. Com toda a certeza, do ministro da Defesa Azeredo Lopes. Com algumas dúvidas, do chefe da Casa Militar do Presidente da República - há certezas de várias conversas e encontros, a certeza de que o tema foi alado, mas indícios, apenas, de que haveria conhecimento da trama. Daí não ter sido acusado no processo.

A estes dois elementos, que pela sua posição ganharam um lugar entre a política e a instituição militar, pedir-se-ia mais responsabilidade. E, sobretudo, uma mentalidade menos castrense e mais cívica. Azeredo Lopes, em especial, não podia não saber o que poderia acontecer se tudo isto viesse a lume. As consequências políticas - nomeadamente. Podia não saber o que é que a lei diz sobre fazer investigações paralelas? Difícil, é professor de Direito. Podia não saber que os militares não deviam fazer um acordo que impediria os assaltantes de um paiol militar de serem presos? Então porque era ministro da Defesa?

É que o mais grave se passou aqui, em termos históricos, não é a trapalhada da "descoberta encenada" das armas, mas sim o assalto, tão simples, a um paiol militar sem segurança. E disso toda a gente se vai esquecer, na loucura do resto da história.

Todas as explicações para o que se passou são graves. A tal autoconfiança, a cultura castrense fechada na sua bolha, a desresponsabilização... Um bom desfecho para tudo isto? O melhor seria que a decisão judicial comprovasse que a investigação tinha sido bem feita e que condenasse com rapidez quem tem de ser condenado. Para que haja alguma coisa que nos faça lembrar que estamos num país civilizado.

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