Tancos ou a confusão

E quando se começava a entender alguma coisa, parte das armas roubadas haviam sido entregues, o mistério adensou. Entre avanços e recuos, o processo já não é um mas são dois, há suspeitos de ambos, há dois crimes, há duas polícias em choque - eis-nos, com o caso de Tancos, envolvidos num bom enredo de filme e num péssimo diagnóstico do Estado português.

Recapitulando. Armas de guerra foram roubadas de um paiol numa das bases militares mais importantes do país. Crime grave a precisar de investigação e de encontrar rapidamente culpados, não tanto para serenar temores de insegurança - isso é política de maquilhagem - mas muito mais do que isso, para resolver um crime contra a segurança nacional. As Forças Armadas são para nos proteger, não para fornecer armas a bandidos, menos má das hipóteses, ou a terroristas. Aquelas eram armas e munições que davam para todos esses fins. Consta que até a festa nacional dos americanos, o famoso 4 de Julho, em Portugal, esteve para ser cancelada. Chega para dar uma ideia de como o caso foi recebido por quem leva a sério a segurança?

Passados uns dias já nada era simples. O próprio ministro da Defesa disse que o roubo poderia até nem o ter sido, que talvez fosse apenas um erro de contagem, de inventários mal feitos. O chefe do Estado-Maior das Forças Armadas revelava a sua impotência para resolver assuntos simples como uma vedação mal vedada num dos lugares militares mais importantes do país. Concluíram-se decisões erradas, como aquela de repartir a vigilância por três unidades militares em vez de a centralizar numa. Finalmente, confusões por haver duas polícias judiciárias a investigar e sinais de que uma delas - a militar - não estava a gostar que à outra - a civil - tivesse sido dada a tutela da investigação.

O cenário não era famoso, mas tudo ainda se complicou quando uma surpreendente entrega das armas furtadas - ou pelo menos algumas delas - num lugar ermo da Chamusca, no Ribatejo, deu origem a mais perguntas. Soube-se de chamadas anónimas, de falhas nas perícias, autoridades que não foram avisadas. E os suspeitos do crime? E os motivos do crime? E as armas não recuperadas na operação? Já vimos, de sofá, filmes suficientes para saber que não se assalta um paiol militar por exercício lúdico, e logo se cai em arrependimento. Enfim, a entrega das armas não acalmou, perturbou, instigou mais dúvidas.

Na resposta a elas estaria o verdadeiro resultado da investigação, na qual se apurariam responsabilidades. Nesta semana, acabámos por ver o processo a fazer aumentar o espanto: a PJ civil anunciou suspeitas de que a PJ militar não descobriu as armas, combinou com criminosos a entrega delas. Suspeitas tão fortes que o próprio diretor da PJM foi detido e ficou em prisão preventiva.

Sobre o processo do roubo de Tancos abriu-se um novo processo, o da entrega encenada das armas roubadas em Tancos. Mete amizades de infância, ex-militares que se dedicam ao crime de tráfico de armas e droga, casa de avós, triangulação de antenas, telefonemas anónimos feitos por polícias, transporte de armas em carros policiais. Tudo isto são bons argumentos para filmes. Os jornais, claro, ocupam-se do assunto e, como de costume, aumentam a trama.

Sendo que esta é uma daquelas exceções em que o diabo está no essencial e não nos pormenores. É menos importante - mas importante - saber o que existe de móbil do segundo processo (como se organizou a entrega das armas). O que fez que militares de carreira, alguns até com experiência de investigação policial - conhecendo as capacidades tecnológicas que existem hoje em dia para ser vigiado quem tem razões para esconder algo -, tivessem agido tão tolamente, deixando pontas soltas (escutas e até textos escritos). Como decidiram em multidão (caramba, oito - 8 - oito implicados) ações tão graves. Será a agora tão famosa húbris, excesso de autoconfiança? Seja, mas mesmo que a resposta seja só "estupidez", nem isso tranquiliza. Para guardas da segurança nacional isso é inquietante.

As hipóteses de ingenuidade ou tolice não esgotam, claro, a possibilidade de haver uma relação entre o primeiro e o segundo processo. Isto é, há que tirar a limpo se os sete intervenientes na recuperação encenada do material estão ou não ligados ao roubo das armas. Direta ou indiretamente.

Porque, repito, o essencial é o primeiro processo: roubaram armas de paióis portugueses. Exige-se mão forte, dura, exemplar. E lições a tirar.

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