O estado da arte

Dezanove minutos, não mais do que isso. Foi quanto bastou para que, em lances sucessivos, processados em cadência rápida, um pedaço de madeira pintada, de 45,4 cm x 65,6 cm, passasse para as mãos de um comprador anónimo. O preço? Mais de 450 milhões de dólares, a quantia mais elevada alguma vez paga por uma pintura.

Tratando-se de uma pintura de Leonardo da Vinci, do qual são raros os quadros existentes no mundo, menos de 20, será um valor aceitável, admite-se, desde que haja alguém disposto a pagá-lo, claro. E houve: 450 milhões.

Simplesmente, não é nada certo, muito longe disso, que Salvator Mundi, assim se chama o quadro milionário, tenha sido realmente pintado por Leonardo da Vinci. Na melhor das hipóteses, e segundo as fontes mais credíveis, como Frank Zöllner, autor do esmagador catálogo raisonné das pinturas e dos desenhos do mestre, é - e isso parece inquestionável - uma das obras do ateliê de Leonardo, pintada provavelmente por um dos seus discípulos, e a que o mestre terá aditado alguns retoques ou pinceladas finais, nada mais.

O quadro não é falso e vários métodos de datação garantem que, sem margem para dúvidas, terá sido feito no início do século XVI. No entanto, e ao contrário do que por vezes se julga, não há nenhuma prova, absolutamente nenhuma, de que Leonardo o tenha pintado. Não existem documentos, testemunhos contemporâneos ou quaisquer outros indícios de que o autor de Mona Lisa alguma vez se tenha aproximado sequer desta figuração de Cristo.

No acervo de Da Vinci, hoje disperso por várias partes do mundo, não há esboços nem trabalhos preparatórios, existindo, eventualmente, dois desenhos com muito remota semelhança com alguns detalhes do quadro (por exemplo, a dobra de vestido no antebraço). Não há também a mínima prova de que algum rei de França o tenha encomendado, sendo essa ausência de notícias sobremaneira estranha em face da extraordinária fama que, ainda em vida, Leonardo tinha nesse país, onde, aliás, morreu (quando muito, é singular que o manto de Cristo não seja vermelho, como era convencional, mas azul, a cor dos monarcas franceses).

Também não há qualquer prova de que o quadro tenha sido posteriormente adquirido para a colecção de Carlos I de Inglaterra, como defendem os que sustentam a autoria de Leonardo, os quais ainda não apresentaram quaisquer documentos que atestem esse facto, o qual, pela sua relevância, certamente teria ficado nos anais de uma ou de outra casa real. É praticamente impossível determinar por onde andou Salvator Mundi durante quatro séculos, de 1500 a 1900.

Depois disso, sabe-se hoje que esteve exposto até 1958 numa residência inglesa, a casa do coleccionador Sir Francis Cook, em Richmond, até ser comprado - por 45 libras! - por um fabricante de móveis de Nova Orleães. Durante as décadas que esteve em Inglaterra, quase 60 anos, o quadro foi observado pelos maiores historiadores de arte britânicos, alguns dos quais especialistas lendários na obra de Da Vinci. Nenhum deles alguma vez pensou que aquele quadro poderia ser da autoria de Leonardo.

Com a morte do seu proprietário americano, os descendentes chamaram avaliadores do recheio da sua casa, um dos quais, da Christie's, nem sequer por um minuto supôs que o quadro poderia ser de Leonardo ou de um seu discípulo. A Christie's manifestou interesse em adquirir algumas telas do coleccionador de Nova Orleães, mas não incluiu Salvator Mundi na sua lista de compras, um facto tão singular quanto seria a mesma Christie's, poucos anos depois, a leiloá-lo pelo preço estratosférico de 450 milhões de dólares, numa noite épica de Novembro de 2017.

Que uma obra dessas, de mão incógnita e de autoria difusa, tenha atingido um valor astronómico é algo que nos faz pensar, sendo o trajecto de Salvator Mundi, da total obscuridade até ao leilão de Nova Iorque, tão ou mais fascinante do que o próprio quadro. Um livro recente de Ben Lewis, The Last Leonardo. A Masterpiece, a Mystery and the Dirty World of Art (Collins, 2019), descreve esse itinerário de forma exaustiva, com rigor detectivesco, permitindo-nos acompanhar pari passu por onde o quadro andou, sobretudo a partir do momento em que foi comprado num leilão, em 2005, por dois negociantes de pintura antiga, Robert Simon e Alex Parish, que o localizaram e que por ele pagaram, pasme-se, a irrisória quantia de 1175 dólares (a Wikipédia ainda contém a informação errónea, posta a circular por Simon e Parish, de que a obra lhes custou 10 mil dólares).

Na altura, como é evidente, ninguém pensava, nem mesmo os seus dois compradores, que o quadro fosse da autoria de Leonardo. A tela, para mais, encontrava-se muito estragada, com rasgões profundos do lado esquerdo, mal deixando ver o rosto de Cristo, em postura serena ante os desastres do mundo.

É digno de um thriller o percurso que o quadro fez em poucos anos, de obra obscura e semidestruída, a que ninguém ligava (um avaliador que a viu classificou-a como "lixo"), até se tornar a pintura mais cara alguma vez vendida num leilão. O mais espantoso de tudo é que Salvator Mundi não era, nem é, um quadro que tenha sido unanimemente atribuído a Leonardo durante séculos ou décadas, uma pintura de autoria incontroversa há muito conhecida e ansiosamente desejada por coleccionadores ou museus.

Quando o compraram, Simon e Parish sabiam estar perante uma pintura antiga da escola italiana, mas de forma alguma pensavam ser uma tela de Da Vinci. Aos poucos, convenceram-se disso e desenvolveram um trabalho assombroso de marketing e relações públicas para convencer o mundo disso, o que permitiu que uma tábua de madeira pintada passasse de pouco mais de 1000 dólares, em 2005, para 450 milhões de dólares, escassos doze anos depois.

O quadro, entretanto, foi alvo de restauro em Nova Iorque, pelas mãos de Dianne Modestini, que lhe acentuou os traços leonardescos muito para lá do que aconselha a ética da conservação de obras de arte. Mais ainda, a restauradora e os dois novos donos da tela forneceram escassos elementos e raras fotografias sobre os trabalhos em curso (uma das imagens foi tirada por telemóvel!), privando os especialistas de uma avaliação correcta e informada acerca da qualidade e da fidedignidade do restauro efectuado.

Após terem-no mostrado em Dallas aos milionários do petróleo, sem sucesso, Simon e Parish desesperavam por vender um quadro que, aparentemente, ninguém queria comprar ao preço que pediam, o que é sintomático da sua duvidosa autenticidade. Em 2013, conseguiram finalmente passá-lo a um dealer suíço, por 75 milhões de dólares, que depois o vendeu, com um lucro fabuloso, a um oligarca russo, Dmitry Rybolovlev, por 127 milhões.

Salvator Mundi foi então alvo de um segundo restauro, ainda mais profundo e mais leonardesco, em que Modestini adensou o sfumato típico do mestre. Falta-lhe, todavia, o movimento e a dinâmica típicos de todas as obras de Leonardo, sendo esse um dos motivos que levam muitos especialistas a questionar a sua autoria. Mesmo os que a defendem, como Martin Kemp, consideram que o restauro feito por Modestini, sobretudo a segunda intervenção, ultrapassou todos os limites do razoável. Depois do restauro invasivo, em gritante contraste com a intervenção minimalista na Última Ceia, desenvolvida ao longo de 21 anos e concluída em 1999, Salvator Mundi passou a parecer um quadro demasiado vinciano. É esse o seu maior problema.

Na campanha que desenvolveram, Robert Simon e Alex Parish contaram com um apoio de peso, Martin Kemp, talvez o maior especialista vivo em Leonardo, o qual, todavia, esteve envolvido numa outra atribuição mais do que controversa, a de La Bella Principessa, que muitos continuam a insistir tratar-se de uma cópia do século XIX.

Mais importante do que o parecer de Kemp, o que contribuiu decisivamente para a projecção mundial da tela e para a consagração da tese leonardesca foi a sua presença, como grande estrela, na megaexposição Leonardo da Vinci: Painter at the Court of Milan, que a National Gallery levou a cabo em 2011, uma das mais concorridas da história, com filas quilométricas, mais de 600 mil visitantes e bilhetes vendidos no mercado negro por centenas de libras.

Os organizadores da mostra, naturalmente, estavam interessados em produzir um grande sucesso, até por competição com o Louvre, que detém mais e melhores obras de Leonardo, e, por isso, violaram um princípio até aí sacrossanto das grandes exibições em museus públicos: não expor obras que se encontrem à venda, como era o caso de Salvator Mundi na altura.

Apesar deste e de muitos outros problemas, o mítico quadro, sobre o qual a Broadway já anunciou que irá estrear um musical em 2022, foi vendido a um russo e, depois de uma digressão promocional por Hong Kong, São Francisco e Nova Iorque, acabou sendo comprado num leilão histórico por um anónimo que, devido a uma fuga de informação, veio a saber-se tratar-se do príncipe saudita Badr bin Abdullah, muito provavelmente como agente do príncipe real Mohammed bin Salman.

Foi anunciado com estrondo que Salvator Mundi seria exibido no Louvre do Abu Dhabi, mas à última hora, sem qualquer explicação, a exposição foi misteriosamente cancelada. Algumas notícias dão conta de que estará no fabuloso iate de Bin Salman, mas o mais provável é que não tenha ainda saído de um local secreto na Suíça, onde, aliás, se encontra há vários anos. Trata-se do Freeport do aeroporto de Genebra, o maior entreposto de obras de arte do mundo, onde estas são comerciadas, trocadas e depositadas secretamente, livres de impostos e outros encargos. A aquisição do quadro de Leonardo pelo príncipe real saudita, longe de ser filantrópica, insere-se numa complexa estratégia pessoal e geopolítica de afirmação do seu domínio ascendente, tirânico e sanguinário, com o apoio de Donald Trump.

O mundo em que Salvator Mundi surgiu e cresceu é o da economia global dominada por 0,0001% de super-ricos, que pagam quantias cada vez mais astronómicas e desproporcionadas por obras de arte, com objectivos de prestígio, investimento, lavagem de dinheiro. O Freeport de Genebra teve, não por acaso, um surto desmesurado a partir do momento em que as autoridades bancárias suíças se viram obrigadas, até por pressão internacional, a apertar o controlo dos movimentos suspeitos de capitais, levando as grandes fortunas a transferirem-se para o mercado de arte, o qual passou incólume às sucessivas crises que vêm assolando o Ocidente, incluindo a da actual pandemia.

As peças agora compradas e vendidas num frenesi alucinante, no qual os museus deixaram de ter capacidade financeira de participar, raramente são exibidas e expostas, estando "privatizadas" em armazéns e depósitos secretos, longe do desfrute do público e dos olhares das autoridades.

O mundo de Salvador Mundi é mesmo um mundo que precisa de ser salvo.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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