A mulher que bateu no marido com o rolo da massa

A hora do jantar é sempre imprópria para ouvir a campainha de casa tocar. Mas, naquela noite, a campainha tocou - e insistentemente. Parecia urgente. Pousámos os talheres, corremos para a porta, abrimos e demos de caras com o vizinho. A penumbra da noite disfarçava-lhe o pânico estampado na cara, que foi ficando cada vez mais evidente à medida que ele se aproximou da luz.

"Entre, entre, o que é se passa?" O homem não conseguia pronunciar palavra. A espaços, saía-lhe um "desculpem, vocês desculpem" e mais nada. Deixámos que ele respirasse. Demos-lhe espaço. As feridas visíveis eram pequenas comparadas com as provocadas pela humilhação. Pela vergonha.

"Ela bateu-me. Ela bateu-me!" A perplexidade que a frase provocou foi tão grande que a pergunta imediata pareceu completamente descabida.

"Quem? Quem é que lhe bateu?"

"A Glória. A Glória pegou no rolo da massa e começou a bater-me." A Glória era a mulher.

Eu era um gaiato quando isto aconteceu, mas é a primeira memória que tenho de ver um homem feito a chorar como um bebé. A humilhação de ter de fugir de casa e procurar abrigo em casa dos vizinhos era tão insuportável que as lágrimas lhe escorriam pela cara, ininterruptamente.

Voltei a lembrar-me daquela noite, que tinha guardada nas minhas memórias mais profundas, a propósito do acórdão do juiz Neto de Moura e quando pensava sobre o porquê de tantas vítimas de violência doméstica continuarem caladas, sem coragem para denunciarem o agressor. A humilhação e a vergonha seriam já razões suficientes, a que não era preciso que se juntasse um dos grandes motivos para esse silêncio: podemos nós confiar numa justiça com este cheiro a bafio?

Chega-me um parágrafo para falar do juiz. Revejo-me em quase tudo o que foi dito e escrito sobre esse senhor que, entretanto, veio reclamar a deturpação das suas palavras, dispensando-se de dar mais explicações. Machista é curto apelido para alguém que age com esta sobranceria. Do alto da sua cadeira no Tribunal da Relação, o juiz Neto de Moura considera-se divino e, por isso, cita a Bíblia (e mal), em vez de citar a lei (que é para isso que lhe pagam). E, quando cita a lei, cita a que mais lhe convém ao pensamento. Neto de Moura não é apenas machista, é o resquício de um país bafiento que estamos sempre a pensar que já não existe, mas que aí está.

Mais do que o sentimento que me provoca um comportamento assim, preocupa-me a inércia do Estado quando descobrimos que os Netos de Moura deste país ainda mexem, ainda julgam pessoas, ainda têm poder. Uma semana de notícias, dezenas de queixas e denúncias da sociedade civil, a que se juntou a pressão da ministra da Justiça e do Presidente da República, e o Conselho Superior de Magistratura lá abriu um inquérito ao colega. "Inquéritos", essa metáfora tão portuguesa para "vamos empatar isto aqui durante uns meses até as pessoas se esquecerem". "Oh, colega, desculpe lá, mas tem mesmo de ser." É isto o mais grave: a inércia do Estado não é involuntária. Pelo contrário, é assumidamente uma forma de cultivar e proteger a mediocridade.

No imediato, Neto de Moura pode continuar na sua vidinha de juiz do Tribunal da Relação. Como não foi suspenso, pelo menos até à conclusão do inquérito, quem sabe que outras citações ou leis medievais pode ele ainda invocar para justificar o injustificável ou atenuar crimes que, em circunstância alguma, devem ser desvalorizados.

Na próxima vez que vierem explicar às vítimas de violência doméstica que devem denunciar os agressores, admirem-se que elas fiquem caladas. Como ficou o Mário, que tocou à minha porta naquele dia, a fugir do rolo da massa que a Glória empunhava.

A campainha voltou a tocar, insistentemente, uns dez minutos depois de o Mário ter entrado porta dentro com as lágrimas a escorrerem-lhe pela cara. Era a Glória, aos gritos, a chamá-lo para casa.

"Vieste fazer queixinhas, foi?" A vergonha e a humilhação doem muito mais do que os hematomas provocados pelo rolo da massa. O Mário e a Glória - ambos nomes fictícios - acabaram por se divorciar e nada foi, como seria de esperar, bonito naquele processo. Estávamos na década de 90 e a violência doméstica estava ainda longe de se vir a tornar um crime público. De lá para cá, mudaram as leis e, felizmente, algumas mentalidades. Não as suficientes. Não nos sítios certos. Uma justiça que mantém em funções um juiz como Neto de Moura perde credibilidade e autoridade moral para apelar às vítimas de violência doméstica que denunciem o agressor. O Mário nunca chegou a fazer queixa da Glória. Foi há mais de 20 anos. Podia ser hoje.

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