Não se muda já como soía, aqui d"el rei!

Estamos a viver um momento em que as certezas se vão esboroando. Esta é uma maneira banalíssima de começar uma crónica, igual a dizer rebeubéu pardais ao ninho ou quem sabe, sabe, e a bem dizer aplica-se a todos os tempos da história. Mas dizer o óbvio fica sempre bem, está sempre certo, e há quem tenha levado a arte do óbvio a um tal expoente que até entrou na galeria dos sublimes, ou quase sublimes, vá lá, ou dos que há quem ache que são sublimes. Como diria Dupont, sósia de Dupond, eu não diria melhor. Voltando ao início da conversa, as certezas são chão que já deu uvas. Eu prefiro achar que deixar sossegadas as certezas e optar por fazer perguntas é, em geral, muito mais divertido e sempre dá que fazer aos neurónios e pode ser que traga alguma coisa de novo a este triste fado. É fazer como as crianças. Porquê? Porquê? Porquê? O sábio Alberto Manguel estudou muito sobre isto, tanto que até escreveu Uma História da Curiosidade, livro totalmente recomendável.

Nesta inquietação, uns repuxam os cabelos, outros sofrem em silêncio remoendo à procura de solução, outros esperam para ver. Há até quem ache muito divertido ou muito adequado que se remexa no fundo das ditas certezas e se apresente receita diferente. E por aí fora, que as opções são de cada um e cada um é como cada qual. Eu acho divertido, gosto sempre de um bom abanão nas sobras do passado. Lá dizia o velho Camões: "Todo o Mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades." Tinha razão, está claro. E para os que pensam que mudanças sim mas só as que deixam tudo na mesma, ele avisou: "E afora este mudar-se cada dia/ Outra mudança faz de mor espanto: Que não se muda já como soía." E aí é que a porca torce o rabo. Não se muda já como soía, aqui d"el rei!

Este chorrilho de filosofia de pacotilha veio-me à cabeça hoje quando li que a revista Playboy vai deixar de ter fotografias de mulheres nuas. Chateia-me que tenham deixado as grandes e memoráveis entrevistas, coisas de grande qualidade e que ficam para a história. Mas quanto às mulheres nuas, confesso, não posso deixar de concordar. Com a quantidade e qualidade e pluralidade de imagens que andam por aí, não se vê vantagem em gastar dinheiro numa revista em papel. Uma revista em papel, que coisa anacrónica. E depois lá no alto há um senhor Zucker que não deixa ver maminhas e outras partes do corpo feminino no Facebook, e já se sabe que neste ano de 2015 se uma coisa não está no FB é porque não existe ou não interessa para nada.

E então agora que deixei isto esclarecido, deixo só uma sugestão, se me permitem. Amanhã chega aos cinemas um filme chamado A Uma Hora Incerta, de Carlos Saboga, uma sinuosa e subtil história no Portugal claustrofóbico dos anos 1940, com belíssima imagem, belíssimos atores, um regalo para quem anda com a cabeça cheia de preocupações.

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