OMS diz que a pandemia podia ter sido evitada*

*E o BE demonstra mais uma vez como as discussões sérias em Portugal nunca são feitas de forma intelectualmente honesta.

Um relatório independente da Organização Mundial de Saúde revelado esta quinta-feira declara, sem sombra de dúvidas, que a atual pandemia poderia ter sido evitada.

Em linhas muito gerais, dizem os mandatados pela organização (grupo que inclui antigos chefes de estado) que tivessem as autoridades chinesas sido mais rápidas a reportar para o exterior o que estava a acontecer nas regiões que foram o primeiro foco da doença e, imediatamente a seguir, existisse uma estrutura internacional montada capaz de reagir eficazmente, e tudo poderia ter sido evitado.

Estrutura essa que não pode, de todo, ser a própria OMS.

Não tem dinheiro para isso, pessoal para isso e, muito menos, vocação para isso.

Teria de ser algo montado sob a égide da ONU, junto do gabinete do Secretário-Geral das Nações Unidas, com poderes supra-estatais, bem acima da OMS, com poder de intervenção direta em caso de emergência sanitária no terreno, não totalmente dependente dos caprichos políticos dos países envolvidos. Com orçamento avultado e dirigido por chefes de estado em vez de burocratas.

As suas contas seriam sempre auditadas pela OMS e pelo FMI. Haveria um "fundo de guerra" permanente no valor de 100 mil milhões de dólares para responder de imediato em caso de emergência.

À OMS caberia o papel de monitorização mundial, de alerta e de quebra de inércia, fazendo intervir no terreno equipas próprias para investigar possíveis surtos sem necessidade de aprovação prévia dos países envolvidos.

Sugiro-lhe, simpático leitor, que vá até ao The Telegraph e leia a notícia sobre o assunto, vale bem a pena. Só lhe peço que regresse porque gostaria de o maçar com um pouco de política à portuguesa...

Por alguma razão (andamos todos demasiado ocupados -- eu inclusive, que só hoje descobri o assunto!), este relatório não teve grande eco na comunicação social portuguesa. No entanto, o Bloco de Esquerda deu por ele e "noticiou-o" no seu site oficial Esquerda.net.

O título do texto está certo (é quase o mesmo deste que está a ler) e, como seria de esperar dada a orientação ideológica da publicação, todo o enfoque da coisa vai para a parte do relatório -- aquilo tem mais de 80 páginas! -- em que se fala do agravamento das desigualdades (novidade nenhuma, mas tudo bem).

Lá para o fim, lá se refere a criação de uma nova instituição. Desta forma:

O painel propõe a criação de um Conselho Global de Ameaças á [sic] Saúde, formado por chefes de Estado e de Governo, bem como a elaboração de uma Convenção-Quadro das Pandemias num espaço de seis meses, além da aprovação de uma declaração política na Assembleia Geral da ONU em setembro, que tenha o compromisso de transformar o sistema de alerta e resposta pandémica no planeta.

E é só.

A partir daqui parte-se para a ideia de que tudo o que é recomendado é -- adivinhem! -- um aumento do peso político (leia-se, dos estados) na resposta às pandemias.

Omite-se por exemplo - com certeza por lapso... -- que o relatório faz questão de referir que o novo órgão teria poderes para monitorizar, avaliar e testar os planos nacionais de resposta a uma pandemia, bem como as medidas em vigor em cada país, além de ter poderes para "chamar à responsabilidade" os seus autores.

Também não se fala, de todo, no poder da OMS de divulgar livremente informações sobre questões sanitárias internas de cada país, sem que tal passe pelo crivo dos respetivos governos -- algo que, se tivesse existido quanto à China no final de 2019, por exemplo, relativamente à "estranha pneumonia" que alguns médicos reportavam e que as autoridades comunistas negavam existir, poderia ter salvo muitas vidas.

Assim é mesmo muito difícil ter uma conversa inteligente neste Portugal...

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