O tímido e o tacticista

1. À primeira vista, o cognome mais associado a António Costa ao longo dos seus seis anos de governação é "o habilidoso". Outros, mais admiradores do que observadores, chamaram-lhe "príncipe da política". E outros ainda, mais analistas do que participantes, deram-no como "um negociador nato". Pois bem. Não pretendo aqui proferir quaisquer juízos de valor acerca do primeiro-ministro. À medida que nos aproximamos do dia da ida às urnas, uma possibilidade vem-se assumindo como suspeita, mais uma pulga atrás da orelha do que uma pedra no sapato, que me acompanha debate a debate, dia a dia, sondagem a sondagem: e se os portugueses quiserem trocar um mau governo com um bom primeiro-ministro por um bom governo com um mau primeiro-ministro?

Uma derrota do Partido Socialista no dia próximo dia 30, a consequente saída de Costa e a ascensão a São Bento de Rui Rio ‒ tusso ‒ não seriam menos do que isso.

Justino seria melhor do que Brandão Rodrigues na Educação (quem não?), Coelho Lima seria o oposto de Eduardo Cabrita no MAI (e ainda bem), Hugo Carneiro seria tão eficiente quanto Mariana Vieira da Silva, Miranda Sarmento não seria assim tão diferente de João Leão nas Finanças, Moreira de Sá prosseguiria a linha de Santos Silva no MNE (não sendo sequer um seu crítico), Proença Garcia não seria pior do que Gomes Cravinho na Defesa, Malheiro seria menos problemático do que Matos Fernandes no Ambiente, Mota Pinto não teria as facilidades de Van Dunem na Justiça, e Ana Paula Martins ‒ a única novidade de Rio na direção que saiu do congresso ‒ seria uma boa ministra da Saúde. Na Economia, com alguma abertura de espírito, o PSD convidaria Fernando Alexandre, académico competentíssimo que está no CES com Francisco Assis.

E o que importa? E Rio? Sem experiência executiva? Passos Coelho também não tinha. Sem grandes crenças democráticas? É o habitual em Portugal. Mas chega? Ou chegaria?

2. Se colocássemos as palavras "tímido" e "tacticista" num boletim de voto, os eleitores associariam a timidez a Rui Rio e o tacticismo a António Costa. Não tenho dúvidas quanto a isso.

Estudando as medidas de cada um e revendo o debate em que se confrontaram, porém, algumas certezas vacilariam. Rio, que passou quatro anos a dizer-se de "centro e centro-esquerda", apresenta um programa em tudo de centro-direita. A complementaridade do setor privado no SNS, o alívio fiscal às empresas, a maior exigência nas escolas, a crítica ao facilitismo nos apoios sociais. Não há nada que seja remotamente socialista ou contrário ao património ideológico do PSD na sua proposta ao país, o que torna os últimos anos de purismo e purga no seu partido um tanto absurdos.

Mas foi ‒ e é ‒ assim. Rio roga aos céus que é quase do PS, mas acena um programa que poderia ser de Passos, Rangel ou Montenegro. Se a estratégia é colher a simpatia da esquerda e a realidade da direita, não ponho em causa. Cansei-me de subestimar Rui Rio, por mais sobrestimado que ele também seja.

3. Já António Costa esteve, esta semana, irreconhecível. Frente a Rio, enrolou e enrolou, culminando numa derrota que pode agradecer à TAP, que além de custar uma fortuna aos contribuintes custou-lhe a ele o debate. Contra Cotrim, sorriu e até se confessou algo liberal, não antagonizando. Perante o seu maior concorrente para primeiro-ministro ‒ o líder do PSD ‒ e o seu maior adversário em ideologia ‒ o deputado da IL ‒, Costa não saiu vencedor.

O consolo das sondagens, que é só mesmo isso, serve de pouco quando faltam duas semanas para a eleição.

4. O Partido Socialista, na voz do seu secretário-geral adjunto e demais correligionários, tem encetado uma campanha baseada na "defesa na liberdade de imprensa" e na "autonomia do poder judicial". Fá-lo por descargo de consciência depois da última maioria absoluta que teve ‒ com Sócrates ‒ e por ataque a Rio, que gosta tanto da comunicação social como do Ministério Público.

No entanto, quando Clara de Sousa perguntou diretamente ao primeiro-ministro que razões o faziam achar Rui Rio "perigoso" para a democracia, António Costa não respondeu. E eu, até hoje, não percebi porquê.

Colunista

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