O som que os versos fazem ao abrir

No último dia do mês de maio tivemos a boa notícia de que Ana Luísa Amaral ganhou o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana, um dos mais destacados galardões internacionais. O prémio foi instituído em 1991 e atribuído pela primeira vez em 1992, completando 30 anos em 2021. Nestas três décadas, foram distinguidos quatro poetas de língua portuguesa, tendo sido o primeiro João Cabral de Melo Neto (1994), seguindo-se Sophia de Mello Breyner (2003), a primeira mulher galardoada, passados 10 anos Nuno Júdice (2013) e agora Ana Luísa Amaral. Se as estatísticas podem dizer pouco, não será de somenos referir que apenas sete mulheres foram nomeadas, e, destas, duas portuguesas.

Ao anunciar a vencedora, a presidente do Património Nacional, organismo que junto com a Universidade de Salamanca atribui o prémio, destacou que este ano se distinguia uma mulher extraordinária, que "fez da sua poesia um lema: toda a grande poesia é ética". Llanos Castellanos referiu ainda um dos traços mais distintivos da escrita de Ana Luísa Amaral: o valor do pequeno e do quotidiano, que se cruzam, digo eu, com outras vozes poéticas - da lírica trovadoresca à tradição anglo-saxónica - e nos fazem saborear cada texto nas suas camadas de sentido. Por essa conjugação, a sua escrita é a constante construção de uma poética, detendo-se na explicação de como se passa da vida aos versos e dos versos à vida. Num dos livros que leio e releio com prazer inesgotável, E Todavia (2015), uma das secções designa-se "O som que os versos fazem ao abrir", título escolhido para um dos mais carismáticos programas da Antena 2, conduzido pela escritora e pelo jornalista Luís Caetano, descrito como análise e leitura de poemas de referência. E, de facto, é esse trabalho que é feito em cada um dos 207 episódios que nos chegam semanalmente desde o início de 2017: abrir os poemas e espreitar como a vida os atravessa e, também, como a poesia tem a qualidade de pressentir o futuro, e por isso consegue atravessar tempos e manter-se atual.

A obra de Ana Luísa Amaral é extensa: além de quase uma vintena de livros de poesia, inclui também ficção, teatro, ensaio, muitas obras para a infância (movida pela necessidade de inventar histórias para a filha) e traduções, com destaque para os 200 poemas de Emily Dickinson e os sonetos de Shakespeare. Aliás, A Tempestade, famosa obra do autor inglês, está bem presente no "poema em ato" Próspero Morreu, onde convoca personagens diversas, de Ariadne a Penélope, incluindo Caliban e Ariel, que proclama em certo momento: "É livre Caliban./E Próspero morreu. Ninguém o chora./Ninguém chora o poder/Sem liberdade é o poder um monstro/de braços bifurcados e língua bifurcada/onde se alojam leis sem pensamento." É esta dimensão ética, associada à estética, que também foi referida pelo reitor da Universidade de Salamanca quando felicitou Ana Luísa Amaral pelo prémio que distinguiu uma poesia de compromisso com a dignidade das pessoas. Mas como também a poeta afirmou quando entrevistada, não, não se pode classificar a sua poesia de feminista ou de combate. Não é esse o propósito, antes o de saber de si sabendo das coisas que a rodeiam, o que também é uma forma de cada um se reler e à vida através das suas palavras.

Muitos prémios têm distinguido a sua obra, desde logo o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (2007), o Prémio Livro do Ano de Poesia - Livrarias de Madrid (2020) e, já em 2021, o Prémio Virgílio Ferreira, atribuído pela Universidade de Évora. O Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana projeta de forma ainda mais internacional o valor da obra de Ana Luísa Amaral e sublinha este visceral entendimento que pode existir entre duas línguas próximas em que se cruzam muitas culturas diversas.

Não seria de dar mais destaque a esta distinção que tanto nos honra e também leva Portugal ao mundo?

Diretora em Portugal da Organização de Estados Ibero-Americanos.

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