O silêncio do inocente

Quando António Costa se tornou primeiro-ministro, possuía um currículo que poucos, quando aí chegaram, haviam conseguido. Fora deputado, líder de bancada, ministro dos Assuntos Parlamentares, ministro da Justiça, ministro da Administração Interna, vereador, eurodeputado, presidente da maior câmara do país e, naturalmente, líder da oposição. A agilidade que muito se tem aplaudido nos últimos seis anos deve-se, em parte, a isso: experiência. Costa foi político a vida toda; política é o que sabe fazer. Mas, tanto ou mais do que o seu percurso e vocação, há uma característica que distingue o primeiro-ministro e os seus mandatos. Quem ma insinuou foi outro crítico seu, igualmente desalentado com o estado do país. É que Costa, para o bem e para o mal, conhece Portugal. Sabe o que pode e o que não pode. O que deve e não deve. O que consegue e pode prometer sem conseguir. Como homem sem grande fervor ideológico, adapta-se consoante o ciclo, a circunstância e a necessidade. Para uns, trata-se de um pragmático. Para outros, um situacionista.

O facto é que, após a dolorosa crise e respetiva intervenção externa, o país queria estabilidade, otimismo e sossego. E Costa entregou-o de mão beijada. Seis anos após chegar a São Bento, passou-se por muito, mudando em pouco. O programa de Costa é a quietude, e é a quietude que o país quer. Três vitórias eleitorais consecutivas e meia década sem uma única sondagem desfavorável são disso prova. Um dos maiores ativos eleitorais do Partido Socialista de hoje é esse: a perceção, até em plena pandemia, não de que vai ficar tudo bem, mas de que vai ficar tudo na mesma. E "na mesma", para uma larga maioria de portugueses, tem sido suficiente.

Isto para dizer que o à-vontade de Costa perante a realidade explica, de igual modo, a sua abordagem a temas mais amargos, como o caso de José Sócrates manifestamente é para o PS. Quando nos perguntamos por que Costa não alinha nas teses de uma putativa reflexão interna do partido sobre as acusações feitas ao seu ex-líder, a resposta é simples. Olhe-se para Fernando Medina, que disparou contra o comportamento de Sócrates como tóxico para "o funcionamento da vida democrática". No espaço de horas, circulava nas redes um vídeo de Medina a cantar louvores ao engenheiro. No espaço de dias, a Câmara Municipal de Lisboa era alvo de buscas da Polícia Judiciária. A moral da história? No PS, a catarse tem perna curta; como teria, aliás, na vasta maioria do regime.

A partir do momento em que Costa permitisse que o discurso político dos socialistas se antecipasse‒ ou se substituísse‒ às decisões da Justiça, teria esse problema em mãos. Do deputado que esta semana viu a imunidade parlamentar levantada por envolvimento na Operação Triângulo às obras no Hospital Militar de Belém derraparem de 750 mil euros para 3,2 milhões de euros em adjudicação direta, sabe Deus como ou porquê; dos 125 mil euros em golas inflamáveis adjudicadas ao marido de uma autarca em 2019; ao secretário de Estado que sugeriu empresas de amigos para contratos públicos durante a pandemia, ensaiar uma ópera redentora utilizando Sócrates como bandeira cairia rapidamente no absurdo ou, como Medina, na aparente hipocrisia. Porquê? De nada serve queimar a bandeira quando os porta-estandartes são os mesmos. E, enquanto Costa cá andar, os mesmos serão.

PS. ‒ Em mais uma sessão de sadismo constitucional, o PSD quer obrigar os titulares de cargos públicos a declararem a sua pertença a "sociedades discretas", isto é, à maçonaria. A mim continua a espantar-me a facilidade com que os nossos legisladores ignoram a Lei Fundamental da República. Diz ela (artigo 41.º): "Ninguém pode ser perguntado por qualquer autoridade acerca das suas convicções ou prática religiosa."

Colunista

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