O setor imobiliário e a desaceleração económica na China (II)

O aumento dos preços do imobiliário e a especulação subjacente, alavancado em financiamento bancário e interligado com disponibilização de terra pelos governos locais, conduziu o setor imobiliário a uma situação insustentável que forçou o governo chinês a tomar medidas para evitar uma implosão e o inevitável arrastamento ao setor bancário. Estas medidas provocaram um significativo abrandamento no crescimento do setor imobiliário que levou a uma desaceleração da economia chinesa na segunda metade de 2021 e início deste ano. A oferta no setor imobiliário, que já contraíra 2,9% no 4.º trimestre de 2021, voltou a contrair (2%) no 1.º trimestre de 2022.

A imposição de "três linhas vermelhas" para os promotores imobiliários colocou desafios complexos para alguns dos principais promotores imobiliários como a Evergrande, com uma dívida total estimada em mais de 300 mil milhões de dólares (mM$), e que incorreu em incumprimento no pagamento de obrigações.

O mesmo sucedeu com vários outros promotores imobiliários relevantes. De acordo com o Financial Times, em outubro de 2021, cerca de metade dos 30 maiores promotores imobiliários da China violavam pelo menos uma das "três linhas vermelhas". No final do terceiro trimestre de 2021, o Global Times noticiou que o número de incumprimentos de obrigações por parte de promotores imobiliários em 2021 se situou em 39, mais 25 do que em 2020, para um valor acumulado de 7,2 mM$, um aumento de 159% em termos homólogos. As perspetivas de alguns analistas para o setor imobiliário em 2022 apontam para uma queda de 14% na procura de imóveis, no primeiro semestre, e uma diminuição de 7,5% nas vendas anuais. De acordo com a Moody"s Investors Service, o valor das vendas de imóveis na China baixará em 2022, mas o declínio diminuirá gradualmente durante o ano. Porém, a 16 de Maio, a Reuters, com base em dados do Instituto Nacional de Estatística, informava que as vendas de novas casas caíram 46,6% em abril face ao ano anterior, enquanto os preços em 70 cidades caíram pelo oitavo mês consecutivo. Até 25 de março, em 2022 os promotores haviam emitido apenas 5,2 mM$ e 1,8 mM$ de obrigações nos mercados onshore e offshore, respectivamente, uma redução comparativamente a 9,7 mM$ e 14,6 mM$ no mesmo período em 2021.

Acresce que a exposição financeira à inadimplência de muitos destes promotores imobiliários é vasta; p. ex., um terço do crédito concedido pelos grandes bancos chineses é para imobiliário.

Alguns analistas acham que as grandes empresas sempre encontrarão formas de angariar fundos - fazendo descontos em vendas de imóveis, dispersando ou aumentando o capital social, vendendo áreas non-core do grupo ou colocando-as na bolsa de Hong Kong, emitindo [mais] obrigações offshore. Outros acham que, atenta a dimensão e relevância destes grandes promotores imobiliários para a economia chinesa, o governo chinês nunca permitirá que vão à falência. Mas se o governo chinês optar por fazer de alguns destes promotores um exemplo, as consequências para a economia chinesa - e global - serão tremendas. Parece claro que irão continuar as medidas impostas pelo governo chinês num setor imobiliário em reestruturação, com ajustamento de preços e volumes de oferta, e um abrandamento do crescimento económico da China.


Consultor financeiro e business developer
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