O regresso a casa

Muito depois da hora marcada, o autocarro começa a rolar de Varsóvia com destino a Kiev. Serão entre 15 e 16 horas, na previsão mais otimista. Está cheio. Mulheres e crianças. Sobretudo mães com filhos pequenos ou adolescentes. E algumas avós.

Estrada.

Do lado polaco, União Europeia, autoestradas quase novas e a perder de vista, uma reta única, quase sem fim, de alcatrão perfeito. Passa pouco das sete da tarde, a noite não tarda e o pôr-do-sol acaba por entrar pelo vidro da frente. As criança brincam, um bebé chora de vez em quando e atrás de mim há uma menina com tosse.

Já perto da fronteira com a Ucrânia, uma fila compacta de nove quilómetros de automóveis. Estão parados na berma, para permitirem a passagem de autocarros e equipas de emergência. Nove quilómetros. A fila quase não anda. São ucranianos, sobretudo mulheres e crianças, que deixaram o país depois de 24 de fevereiro e que agora estão de regresso. Tanta gente. Com tanta esperança. E resiliência. E paciência.

A fronteira, do lado polaco, é simpática e moderna. Mas os guardas fazem questão de ver, um a um, todos os carros. Abrir as malas. Verificar e carimbar os passaportes. Por isso, a fila dos nove quilómetros continua a aumentar. Na véspera eram 16.

No lado ucraniano, a fronteira é velha, mal-amanhada e pouco amigável. A Ucrânia não está na União Europeia.

Os que viajam no autocarro não dão grande importância às diferenças notórias entre os dois países. Só querem voltar a casa. E é o que estão a fazer, sem ter a certeza de que vão encontrar tudo o que deixaram.

As crianças brincam. Há, nos olhares das mães, um extremo cansaço próprio de quem esteve várias semanas a fazer o papel de mãe e de pai. De quem fugiu para proteger os filhos. De quem tenta esconder aos mais pequenos o que de facto se passa. E de quem, em sofrimento, disfarça a dor com sorrisos.

Quando chegam ao destino, há homens à espera. Com flores, abraços e saudades. É gente feliz com lágrimas. E há as crianças, que abraçam os pais, tios ou avós com um entusiasmo próprio dos reencontros.

Maria tem 31 anos. Já trabalhou em Itália. Daqui a uma semana terá novo emprego em Berlim. Mas quis vir a casa. A Kiev. "Sabe, aquela sensação que temos quando nos zangamos com um namorado e depois disso é que percebemos o quanto o amávamos? É isso. Eu amo esta terra, este país, estas pessoas e estes lugares". Maria anda pelas ruas da sua cidade a fotografar tudo. Não se quer esquecer outra vez da beleza de Kiev. Vai, para já, trabalhar fora. Mas promete: "Em breve volto e nunca mais saio daqui. É aqui que quero ficar, na minha terra que, agora, percebo o que significa para mim".

Kiev está diferente. Tem gente na rua, carros a passar, restaurantes e esplanadas abertas. Tem vida. Tem escolha. Parece uma cidade quase normal. O regresso a casa de muitos deslocados ou refugiados deu nova vida à cidade, depois dos dias de chumbo de fevereiro e março. O sol bate forte, quase violento, nada habitual na primavera de Kiev. Há uma brisa leve, que ajuda a espalhar o calor. Os postos de controlo são menos do que no início da guerra. E não há tanta presença militar na rua.

Não se pode normalizar o estado de guerra. Mas pode viver-se o dia-a-dia com ela.

Tocam as sirenes.

Kiev resiste.

Jornalista

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