O que (não faz) falta!

O debate das rádios (Antena 1, Rádio Renascença e TSF), dedicado às presidenciais, cumpriu o seu propósito, com notável moderação e genericamente com boa argumentação. O estado de emergência dominou uma boa parte do debate, sobretudo a inicial, num instante demorado preenchido pela pandemia, sem impedir a discussão daí em diante, sobre a justiça, os poderes do Presidente, a Constituição, a formação do Governo dos Açores, passando, entre outros assuntos, pela regionalização. Tudo quanto, na minha opinião, importa para estas eleições e é possível introduzir e desenvolver num debate deste género. Pelo calendário - por ser o último encontro previsto entre todos os candidatos, antes do próximo dia 24 - e pelo contexto da pandemia - que transformou os media no palco primordial da campanha eleitoral - o debate nas rádios teve um papel importante, dentro daquilo que é a sua influência relativa na opinião pública e, em particular, no eleitorado.

Cada um dos seis presentes teve a oportunidade de se afirmar, confirmando ora o seu estilo ora as suas ideias. O debate não trouxe novidades, de facto, mas permitiu esclarecer, ouvir novamente o tanto que se repetiu e, o mais interessante, perceber o Chefe de Estado que cada candidato promete ser, num debate em que Vitorino Silva voltou a ser o homem das metáforas e das ideias feitas e Ana Gomes a candidata das causas - mais do Livre e do PAN, do que do PS - desde as cores da economia, entre o verde e o azul, à corrupção. Marisa Matias não resistiu a ser a primeira, entre os candidatos no debate, a fazer referência à ausência de Ventura, com Tiago Mayan Gonçalves a somar, progredindo do inicialmente desconhecido para o cada vez mais assertivo e João Ferreira a evidenciar a sua preparação e clarividência, consolidando a imagem do futuro, já presente, do PCP, que as presidenciais têm permitido dar a conhecer melhor. Marcelo foi mais Presidente do que candidato e André Ventura foi a falta que não fez falta.

O debate abriu com o esclarecimento relativo à ausência do candidato André Ventura, por motivo de agenda. O mesmo que pediu substituição das funções de deputado para fazer campanha, e que, não estando ao serviço do parlamento àquela hora, faltou ao debate porque sim. Por opção.

Sem querer alimentar o protagonismo de "figuras laterais", como classificou Marcelo Rebelo de Sousa - e que subscrevo -, importa destacar o insucesso da estratégia do deputado único e líder do Chega, no dia seguinte ao jantar em Braga com 170 pessoas. Pela simples razão de que a alma ausente do esqueleto de Serpa alcançou mais mediatismo do que a ausência do candidato André Ventura neste debate, derrotando o seu propósito e a sua intenção.

André Ventura é a antítese daquilo que deve ser um candidato presidencial e, sobretudo, um Presidente da República. Fugir à discussão é um ato de cobardia e de prepotência, mais ainda com o subterfúgio da agenda. É a demonstração da impreparação para o exercício da política, mas também a falência do epifenómeno que representa.

Como alguém escreveu: "Ele há coincidências (quase) providenciais...".

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