O que é a Páscoa dos cristãos

Começou ontem a semana maior para os cristãos: a Semana Santa, que culmina com a celebração da ressurreição de Jesus, no Domingo de Páscoa. Se a encarnação, festejada no Natal, já é um mistério, a ressurreição é o seu culminar. Na morte e na ressurreição de Jesus celebramos a entrega total de Deus a todos os homens, a remissão de todos os pecados, a salvação pelo amor incondicional. Os quarenta dias da Quaresma são a preparação necessária para esta semana em que a partir do Domingo de Ramos os cristãos são convidados a reviver intensamente a paixão, a morte e a ressurreição de Jesus.

A grande singularidade do cristianismo está na Páscoa, como diria D. José Tolentino de Mendonça, no "escândalo da cruz", num Deus que se fez homem para salvar a humanidade oferecendo a sua própria vida. O testemunho de Cristo é comprovado na cruz e não podia ser mais impressivo: não basta dar uma parte, é preciso dar tudo pelos outros, até a própria vida, para alcançar a plenitude da companhia de Deus. A dureza desta mensagem vem interpelando os cristãos desde sempre, é preciso a dádiva incondicional, o despojamento total, o excesso na entrega.

A proposta de Cristo é pessoal, individual, mas, pela sua própria essência, convoca cada pessoa a uma vida de ação à luz do seu testemunho. Ação que não é apenas individual, mas também coletiva, de intervenção no espaço público, porque o cristianismo é transformador se vivido em relação e em função dos outros, com os outros e para os outros.

O Papa Francisco, na sua última encíclica, a encíclica social Fratelli Tutti, coloca especial ênfase na dimensão social e comunitária da mensagem de Cristo e é claro e acutilante na exigência. É preciso construir um mundo aberto a todas as pessoas, com uma ação que genuinamente proteja as raízes e as identidades para melhor compreender e acolher os outros no que têm de diverso e então, na união da humanidade comum, construir uma sociedade mais justa. Não são aceitáveis posições de fechamento, de xenofobia ou de racismo, pelo contrário, o amor ao próximo obriga ao interesse por cada pessoa em concreto, pela sua vida, pelo seu bem-estar, sem qualquer tipo de discriminação. Por isso o Papa apela a um coração aberto ao mundo inteiro e a um intercâmbio fecundo entre países e povos, a um acolhimento gratuito, que parta da identidade de cada um para o conhecimento mútuo e o encontro na fraternidade.

A encíclica é dada em 2020 em Assis, junto ao túmulo de São Francisco, e não é obviamente um acaso. Em plena guerra das cruzadas, Francisco de Assis ousou arriscar a vida e viajar até ao Egito para encontrar o sultão Malik-al-Kamil e, de coração aberto, apelar à paz. Oitocentos anos depois, este texto é escrito à luz do encontro do Papa com o grande Imã Ahmad Al-Tayyeb, em Abu Dhabi, em 2019, e tem a preocupação clara de afirmar um caminho comum feito da busca da fraternidade universal e da rejeição de qualquer forma de violência.

Neste tempo de Páscoa, em que enquanto cristãos vivemos o centro da nossa fé, vale a pena termos bem presentes as palavras de Francisco quando escreve: "Sonhemos como uma única humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos desta mesma terra que nos alberga a todos, cada qual com a riqueza da sua própria fé ou das suas convicções, cada qual com a própria voz, mas todos irmãos."

Não nos achemos melhores do que os outros, antes responsáveis pelos outros.

Professora da Nova School of Law. Coordenadora do Mestrado em Direito e Economia do Mar

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