O que acontece na infância não fica na infância

Falar de maus-tratos é falar de comportamentos muito diversos, desde a negligência e os maus-tratos físicos e psicológicos ao abuso sexual. Falamos ainda da exposição à violência entre os pais e da manipulação e sugestionamento por parte de um progenitor, por forma a alterar os vínculos afetivos com o outro.

Começa hoje o mês de abril, dedicado à prevenção dos maus-tratos na infância e na juventude. Um mês durante o qual todas as atenções estão voltadas, e bem, para a reflexão e a consciencialização de toda a comunidade sobre este tema, infelizmente ainda tão atual.

A negligência por falta de provisão, quando as necessidades básicas da criança não são satisfeitas, bem como os maus-tratos físicos, são as categorias mais fáceis de identificar e reconhecer enquanto formas de maltrato, pelas consequências observáveis e as sequelas físicas que deixam. Por outro lado, a negligência emocional e os maus-tratos psicológicos não deixam marcas visíveis. Não há queimaduras, hematomas ou ossos partidos, mas sim ameaças, terror e humilhação, a par de exclusão da criança, fazendo-a sentir que não é amada nem desejada. Os maus-tratos emocionais são o parente pobre dos maus-tratos, tantas vezes desvalorizados e, ao mesmo tempo, aqueles que apresentam maior prevalência.

O abuso sexual, no passado mais desvalorizado sempre que não existia penetração, é hoje entendido de outra forma, reconhecendo-se a multiplicidade de comportamentos que pode envolver, muitos deles sem contacto físico.

A exposição da criança à violência entre os pais é também uma realidade crescente. Estas crianças percecionam um dos progenitores como agressivo e o outro, vítima dessa mesma agressividade, é muitas vezes sentido como menos disponível do ponto de vista emocional. Existem ainda numerosas situações em que a violência entre os pais é mútua, expondo a criança a um verdadeiro clima de guerra.

E o que dizer das crianças manipuladas e sugestionadas por um dos pais, por forma a alterar o relacionamento que mantém com o outro? São crianças igualmente expostas ao conflito parental, que se aliam a um dos pais, instrumentalizadas e utilizadas como verdadeiras armas de arremesso. Injustificadamente afastadas de um dos pais, por vezes durante anos, crescem amputadas. Sim, também esta é uma forma de maltrato que nem sempre é reconhecida enquanto tal.

Os maus-tratos existem e apresentam contornos nem sempre facilmente identificáveis. Exigem, por isso, um olhar atento de todos nós, enquanto comunidade, por forma a facilitar a sua deteção e sinalização precoces. Exigem ainda um esforço conjunto de articulação dos vários profissionais e serviços, para uma avaliação rigorosa e uma intervenção célere e protetora. Proteger as crianças é dever de todos, e nunca é demais lembrar que as crianças crescem, o tempo passa, mas as sequelas permanecem. Aquilo que acontece na infância não fica na infância.

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

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