O planeta Rio

O leitor ficaria estupefacto com a impreparação que rodeia a maioria dos gabinetes políticos e partidários em Portugal. Palavra. No último ano, tal foi persistentemente óbvio. O chefe de Estado a gravar mensagens de vídeo com uma webcam amadora durante o confinamento. O líder de um partido com 46 anos - o CDS - a exercer mandato sem chefe de gabinete ou assessor de imprensa. Um candidato à maior autarquia do país a defender uma posição diametralmente oposta à do partido que o apresentou ‒ o IL ‒, quando uma pesquisa Google teria servido para evitar a imprudência. E já não falo do Governo, porque me obrigaria a um texto inteiro.

A verdade - e não é uma verdade popular - é que há falta de operacionais políticos em Portugal. Não falo de caciques, sacos de votos ou entachados locais, cujo ofício se resume à leitura dos jornais diários (haja quem os leia). Falo de operacionais políticos formados para conceber e executar estratégias; para cozinhar uma fórmula idealmente composta por políticas, política e mensagem. Profissionais, portanto.

A ideia de que a política como a queremos numa república - com os seus rituais, ritmos e estéticas ‒ pode subsistir com académicos, burocratas e a dita "sociedade civil" é um tanto ingénua. A política precisa de políticos, como a democracia precisa de partidos, como as lideranças precisam de conselho. Talvez nada o revele como o atual estado do PSD. Ao fim de três anos de Rio, o maior partido da oposição é um corpo flutuante de destino incerto e vida duvidosa. Um cadáver adiado que procria, citando o poeta.

Independentemente dos gostos e preferências de cada um, Rui Rio falhou como líder da oposição. Não ganhou uma só eleição em três anos, sendo escusado falar dos Açores, que foram mais perdidos pelo PS do que vencidos pela direita. Não é o não fazer oposição, que Rio até faz, é o não saber fazê-la.

Tradicionalmente, o PSD não pede demissões de ministros, e Rio quebrou essa tradição; o problema é que ninguém se demitiu a seguir. O problema é que, nos momentos de maior fragilidade do Governo, Rio surge constantemente a falar de temas espúrios, que não cabem na cabeça de ninguém, como que desconversando.

Em janeiro, ficou a falar sozinho sobre adiar as presidenciais. Em fevereiro, ficou a falar sozinho sobre reagendar as autárquicas. E jamais esqueceremos a proposta, caída do céu, de mudar um tribunal para Coimbra a meio de uma pandemia. É o planeta Rio, caro leitor, onde tudo é possível mas nada acontece. Onde nunca se tem uma posição, portanto podem ter-se todas, menos aquela que digam ser a nossa.

Se a fragmentação da direita não é culpa sua, a conversão desses fragmentos - Chega e IL - em blocos é sua responsabilidade.

O rioísmo tornou-se uma profissão de fé. Uma religião com mais sacerdotes do que fiéis. Uma crença crescentemente escassa e somente partilhada entre aqueles que a compreendem, que não são muitos. Falam uma língua própria e leem os eventos a uma luz oculta ao comum mortal. No PSD que conta, ninguém acredita realmente em Rui Rio. Estão com ele por não haver alternativa, e, nisso, são muito parecidos com o restante país, que está com Costa pelos mesmos motivos.

Rio perderá as autárquicas e será mais uma derrota que atribuirá a quem lhe antecedeu. "Depois dos desastres de 2013 e 2017, era impossível ter mais câmaras do que o Partido Socialista", já se consegue ouvir, e não será mentira. Apostará no aumento de votos, vereadores e capitais de distrito, e nada nos diz que isso não chega para ser reeleito no congresso de início do próximo ano.
Para ganhar o país é que é outra conversa.

Colunista

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