O paradoxo evolucional

Muitas vezes se fala de ciclos e contraciclos, fluxos e refluxos, avanços e retrocessos nos mais variados campos das artes e das ciências.

Há, no entanto, uma dinâmica temporal que se sobrepõe em importância e relevância às anteriores que é a rapidez. Falo da rapidez da criação cruzada com a rapidez de adequação, cruzada ainda com a rapidez de aprendizagem. Ou seja, a rapidez de cada uma delas é diferente, e isso causa-nos um paradoxo temporal, ou melhor ainda, um paradoxo evolutivo.

Veja-se por exemplo o Hospital Curry Cabral que inaugurou no final de 2019, o primeiro robô para cirurgias do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Fantástico!

Um equipamento que terá custado na ordem dos três a quatro milhões euros e é utilizado em várias especialidades como substituto da mestria do cirurgião, permitindo uma maior precisão no ato cirúrgico. Veja-se também o Hospital Lusíadas que no final de 2021 efetuou também a sua primeira cirurgia robotizada. É certamente um admirável mundo novo, até aqui tudo bem, mas... e quem manipula essas mãos metálicas? Um médico, um engenheiro ou um tenista, cuja precisão no toque, no gesto e no controlo da força é acima da média quando comparado com os demais mortais? E este robô vem a tempo de ser "ensinado" nas escolas, ou terão as escolas tempo de ensinar sobre o robô, quando a maior parte das escolas são tecnoexcluídas?

A Polar Manufacturing, empresa sediada em Chicago que fabrica dobradiças, fechaduras e suportes de metal há mais de cem anos contratou o seu primeiro empregado robô. Leram bem: "funcionário robô".

Este robô realiza um trabalho simples e repetitivo, mas o mais caricato é que na verdade este "braço robô" não é um empregado full-time, é uma subcontratação. Ou seja, este trabalhador robô é pago pelas horas que trabalha, e por metade do valor hora de um salário mínimo de um empregado humano. Portanto na escassez de trabalhadores, criou-se um braço robô que suprime a falta de mão-de-obra, nas que no limite poderá também colocar empregos em risco. Ou criar novos... mas adiante! Estamos perante mais um exemplo onde a criação, a adequação ao contexto e a aprendizagem estão a correr no mesmo estádio, mas em pistas diferentes e a velocidades díspares.

É caso para dizer que a velocidade de transformação do mundo não está adequada à velocidade da sua própria adequação. Que é como quem diz, fazemos demasiado depressa, aprendemos demasiado devagar.

Designer e diretor do IADE - Faculdade de Design, Tecnologia e Comunicação da Universidade Europeia

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