O mundo precisa de um ano determinante

Este ano deve marcar um ponto de viragem global. Considerando que a cooperação internacional falhou muitas vezes em 2020, agora temos a oportunidade, e a responsabilidade, de inaugurar uma nova era em que um mundo mais saudável, mais verde, mais seguro e mais justo seja possível.

A grande verdade que emergiu da pandemia deste coronavírus é que ninguém, em nenhum lugar, está a salvo da covid-19 até que todos, em todos os lugares, estejam seguros. O primeiro passo, que se pagará a si próprio muitas vezes, é garantir a vacinação em massa em todos os países afetados. O apoio do G7 e do G20 que tornará as vacinas prontamente acessíveis aos países de baixo e médio rendimento não é um ato de caridade, é do interesse estratégico de todos os países. Na verdade, o Fundo Monetário Internacional acredita que esse apoio seria o melhor investimento público alguma vez feito.

Na cimeira do G7 nesta semana na Cornualha, os Estados membros e os seus convidados devem liderar, garantindo o pagamento de 67% do financiamento necessário para o Acelerador de Acesso às Ferramentas Covid-19 (ACT sigla em inglês) neste ano e no próximo. Isto baseia-se numa abordagem de financiamento de participação justa e numa fórmula de repartição de encargos financeiros proposta pelos governos da Noruega e da África do Sul, e reflete uma avaliação realista da capacidade de pagamento dos países.

O G7 também deve liderar o apoio à partilha de doses e acordos de licenciamento voluntário, incluindo, potencialmente, isenções temporárias de patentes que permitiriam a transferência de conhecimento e tecnologia necessários para fabricar vacinas em todos os continentes.

Além disso, deve ser pedido às instituições financeiras multilaterais e regionais do mundo que libertem novos recursos para os países de baixo e médio rendimento para fortalecer a capacidade dos seus sistemas de saúde. E também devem apoiar a implementação das recomendações detalhadas do recente relatório feito pelo Painel Independente para Preparação e Resposta à Pandemia para a Organização Mundial da Saúde.

O alinhamento da política económica global será crucial na reconstrução da economia mundial no pós-pandemia. Tivemos a sorte de que, no último ano, na fase inicial de recuperação da covid-19, a maioria dos países seguiu políticas semelhantes, resultando num nível de alinhamento aceitável. O que precisamos agora é de um plano de crescimento global acordado com intervenções monetárias e fiscais coordenadas para evitar uma recuperação desigual e desequilibrada e garantir um futuro mais inclusivo, equitativo e mais verde. Por exemplo, se as propostas do FMI para um impulso sincronizado nas infraestruturas, incluindo infraestruturas verdes, em todos os continentes, fossem adotadas pelo G7 e pelo G20, aumentariam a produção económica global em cerca de 2 biliões de dólares até 2025.

O G20 e o G7 também devem abordar a crescente divergência causada por diferenças nos resultados de saúde e abordagens descoordenadas de políticas macroeconómicas. Enquanto a maioria das economias avançadas pode esperar um forte crescimento e vacinas amplamente disponíveis, grande parte do mundo emergente e em desenvolvimento deve enfrentar as novas ondas e novas variantes do vírus com reservas económicas e sociais esgotadas. Após uma lenta recuperação do comércio global e do investimento estrangeiro direto, muitos países enfrentam dívidas crescentes e receitas fiscais em queda, bem como fluxos de ajuda em declínio.

Com até 150 milhões de pessoas a mais a entrarem na pobreza devido à covid-19 e com cortes generalizados nos orçamentos de saúde e educação, a pandemia pode ter atrasado o progresso em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) para 2030 em cerca de cinco anos, sendo as raparigas e as mulheres quem mais sofre. Apelamos ao G7 para prolongar a sua iniciativa na educação de raparigas e apoiar o plano da UNICEF para a conectividade digital que garanta a inclusão de todos os jovens.

O G7 e o G20 podem ajudar a preencher as lacunas de financiamento enfrentadas pelos países vulneráveis ​​e agir para restaurar um caminho viável em direção aos ODS. Isso exigirá que os bancos multilaterais de desenvolvimento apliquem mais financiamento, de forma mais eficiente, otimizando os seus balanços e revendo a sua estrutura de adequação de capital, conforme já solicitado pelo G20, e considerem fazer reposições. A esse respeito, precisamos de avaliar novos instrumentos baseados em garantias para atrair o financiamento do setor privado para saúde, educação e redes de segurança social, e precisamos de fazer progressos nos acordos internacionais para reduzir a evasão fiscal, como a taxa mínima global recentemente apoiada pelos ministros das finanças do G7.

Além disso, devemos redobrar os nossos esforços para garantir a sustentabilidade da dívida para os países de baixo e médio rendimento. Isso significa alongar a Iniciativa de Suspensão do Serviço da Dívida do G20 e encorajar uma participação mais ampla de credores privados, e possivelmente de credores oficiais não pertencentes ao G20, no novo Quadro Comum para Tratamentos de Dívida. O sucesso dependerá de maior transparência por parte dos devedores e credores.

Este ano também é vital para o progresso em direção a emissões líquidas zero de dióxido de carbono até 2050. Antes da cimeira do clima das Nações Unidas (COP26) em Glasgow em novembro, os países do G7 e do G20 devem anunciar compromissos nacionais ousados. Eles devem exigir que as empresas revelem as suas pegadas de carbono, cumpram o fundo proposto para mitigação e adaptação em países de baixo e médio-baixo rendimento e garantam que os seus planos de recuperação económica impulsionem as energias renováveis e as infraestruturas verdes.

Esta não é uma tarefa apenas dos governos nacionais. Empresas, cidades e instituições multilaterais devem estar no centro dos esforços para alcançar emissões líquidas zero até meio do século. E, como no caso da recuperação global pós-pandemia, os esforços coordenados de que precisamos devem ser colocados firmemente em prática neste ano.

Graça Machel é fundadora do Graça Machel Trust. Helen Clark, ex-primeira-ministra da Nova Zelândia (1999-2008), é presidente do Conselho de Mulheres Líderes Políticas. Mary Robinson é ex-presidente da Irlanda. Ban
Ki-moon, vice-presidente do The Elders, é ex-secretário-geral das Nações Unidas e ministro das Relações Exteriores sul-coreano. Gordon Brown, ex-primeiro-ministro do Reino Unido, é enviado especial das Nações Unidas para a Educação Global e presidente da Comissão Internacional de Financiamento de Oportunidades de Educação Global.

© Project Syndicate, 2021

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